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UNIVERSITY OF TORONTO
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Professor
Ralph G. Stanton
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PRIMEIRA PARTE
DA HISTORIA
DE S. DOMINGOS
PAUTlClLAll DO ll£INO E CONQUISTAS DE PORTUGAL POR FR. I.UI^ €A€£€}A!i
DA MESÍ!ÍIA ORDEM E PROVÍNCIA, E CHRONISTA DELLA
REFORMADA EM ESTILO E ORDEM, E AMPLIFICADA EM SUCCESSOS, E PARTICULARIDADES
POR FR. luís de SOUSA
FILHO DO CONVENTO DE BEMFICA
TERCEIM EDICiO
VOLUME II
LISBOA TYP. DO PANORAMA-Rua do Arco do Bandeira, 112.
M DCCG LXYI.
DE QUE A. J. F. LOPES É EDITOR.
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fanorania. semanário de in*truc- cHo e litleraLura, fundado fm Í837. Unia colleccão de íò
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Cotno se sobe ao poder, c. em 3
aclos, 1 vol.8."fr 40O
O Sapateiro d'escada, c. em 1
acto, 1 vol. 8." IGO
A Domadora de feras, c. em 1
acto, 1 vol 8"fr IGO
A. CEZAR DE LACERDA
Um Visco, c. em 2 aclos 100
Sccnas de familia, c. em 2 actos. 320 A Dúplice existência, c. em 4
actos 2i0
A Probidade, c em 2 actos e 1
prologo, 2.' ed 300
Os Filhos dos trabalhos, J. em
4 aclos 860
PRIMEIRA PARTE
DA
HISTORIA DE 8. DOMINGOS
PRIMEIRA PARTE
DA HI8T0EIA
DES. DOMINGOS
PARTICILAU DO BEINO E CONQUISTAS DE PORTUGAL POR FR. MAJim CACEIAS
DA MESMA ORDEM E PROVÍNCIA, E CHRONISTA DELLA
REFORMADA EM ESTILO E ORDEM, E AMPLIFICADA EM SUCCESSOS E PARTICULARIDADES
POR FR. luís de SOUSA
FILHO DO convi:m'o de demfiga
TERCEIRA EDICAO
VOLIIMK II
IJSROA TYP. 1)0 PANORAMA—Wm do Arco do Dandeira, li^i.
M DCCC LXVI.
LIVRO QUARTO
DA
HISTORIA DE S. DOMINGOS
PARTICULAR DO REINO, E CONQUISTAS DE PORTUGAL CAPITULO I
De huma fjrande perseguição que em Portugal se levantou contra a Ordem. E dos favores com que a Sé Apostólica acudio aos Religiosos.
Somos cbegndos com a Historia aos annos do Senhor 1^66 na parle que toca á fundação dos Conventos, que he a raiz, e tronco d'ella, des- pois que nosso Padre S. Domingos nos faltou na terra. E estamos com quatro Conventos de Frades fundados, e hum de Freiras. E ainda que nos temos adiantado tanto nas vidas, e feitos, e successos dos filhos d'elles, que chegamos com alguns aos tempos presentes, sempre nos ha de ficar por guia o anno da fundação de cada hum : assi pêra levarmos inflada, e certa a antiguidade de todos, como pêra nâo perturbarmos a ordem das cousas gerais tocantes a toda a Província. E por isso he for- çado tanto que concluimos o que ha que dizer do Convento, que vai suc- cedendo tornar logo atrás, e levar atada, e direita a conta dos annos. Não ignoro que he desgosto pêra quem lé, este modo de dar, e arre- piar carreiras, e tão largas, que chegão algumas a quasi quatrocentos annos. Mas o género de historia, que temos entre mãos não sofre ou- tra traça (despois de buscadas todas) pêra ser intelhgivel. Temos exem- plo no que faz quem escreve a Crónica de hum Rei, qnando trata de seus filhos, que por se não divertir da historia principal, a que está obiMgado, se quizesse ir tecendo juntamente com os annos do pai, os
VOL, U 1
2 LIVRO IV DA HISTORIA DE S. DOMINGOS
de cada hum dos filhos, lança em hum capitulo junto o que ha de cada filho, hum por hum, até os enterrar todos, inda que vencessem em vi- da, e annos ao pai, e desobrigado d'elles, prosegue sua narração. Da mesma maneira faço conta que o corpo da Provinda he aqui o nosso Rei, cuja Crónica escrevemos: os Conventos síio os filhos: á Crónica do Bei pertence lançarmos em memoria quando, e como lhe naceo o filho, e a filha: e na hora que lhe. damos o nacimento, desenrolar logo sua vida até o fim, pêra evitar confusão : e dcspois tornar aos successos ge- rais, e ir eontimiando n'elles segundo a ordem dos annos. Com esta co- meçamos a Historia, na mesma iremos proseguindo ato o cabo, se Deos for servido dar-nos forças pêra }h'o vermos.
Seguindo a metáfora proposta, nace n'este anno de Í26G a nosso Rei, que he nossa Província, hum filho que he o Convento de Elvas. Mas porque se offerecem juntamente successos de importância que to- cão â Província, diremos primeiro estes, e logo tornaremos ao filho. He pois de saber, que correndo com grande credito de virtude, e prospe- ridade de governo os Conventos que n'este tempo tínhamos em Portu- gal, sendo estimados dos Ueis, e do povo, e trazidos nos olhos dos Provinciais, foi Deos servido pêra os fins que elle sabe, que sempre são de nosso proveito, levantar huma rigorosa perseguição contra os Reli- giosos todos, e contra todos os Conventos, e passou d'esta maneira. Cor- ria o povo com grande frequência a nossas Igrejas aos Sermões, e dou- trinas, e Ofíicios Divinos : e como a vida, e proceder dos Religiosos di- zia com o que insinuavão, era grande a devação com que lhes acudia amontoando esmolas, e provimento de toda sorte pêra as Communida- des, tomando jazigos, e capellas nas Igrejas, encomendando Missas, e suíTragios nas sacristias. Foi isto em tanto crecimento (como as cousas do povo seguem sempre estremes) que os Sacerdotes seculares o vierão a sintir, ou como menos cabo seu, ou como detrimento de suas Igrejas, e benesses: levantarão queixa, apertarão com os Prelados, como atrás vimos na cidade do Porto. Começarão os Bispos a fazer caso do nego- cio, ou temendo que lhes faltassem Curas, ou parecendo-lhes que esta- vão obrigados a sustentar a causa em que o Clero hia interessado: e a poucos lances delerminarão-se em cousa, que foi tirar em claro aos Conventos todo o género de remédio, tolhião-lhes enterros, impedião esmolas, e offertas, prohibião aos Diocezanos ouvirem os Officios Divi- nos nas Igrejas dos Frades, castigando com rigor os que faltavão. na's
PAUTICUL.Va DO líElXO DE POllTIT.AL 3
suas, c aló nas pregações piinhão termo : de sorte que não faltava mais que lançarem-nos das cidades os mesmos Preladis que primeiro nrs cliamavâo pêra companheiros de seu ministério, e nos agasalhavão, e honravão. Encolhião-se os Religiosos no principio por não parecer, que sendo hospedes querião mais kigar na casa alheia do que seu dono Ihrcs dava, padecião sem falar. Crecendo com o silencio o dano, tratarão de o vencer com paciência : encomendavão a causa a Nosso Senhor com fer- ventes, e continuas orações, tomando por valedora a Virgem sagrada do Rosário, particular, e universal valedora d'esta Ordem dos principies tVella, e usando do meio de sua devota Ladainha, antigo refugio de nos- sos trabalhos. Mas nenhum sofrimento nem moderação nossa mitigava os ânimos do Clero zeloso de suas prebendas: e como tinhão por si o poder Episcopal, que he alçada suprema, multiplicavão-se avexações, o apertos contra os humildes, sem ser admittida nenhuma composição nem partido de muitos, que algumas pessoas compadecidas da inquietação dos Frades punhão em pratica.
Pareceo então aos Prelados dos Conventos, que excedia os limites da prudência pairar mais tempo tão porfiada tormenta, porque vinha a redundar a dissimulação em prejuízo geral dos privilégios da Ordem da- dos pola Sé Apostólica: os quais nenhum súbdito pode renunciar; o quando o faça, além de cometer culpa digna de castigo, não vai em di- reito tal renunciação. Assi fizerão queixa na Guria Romana, dando con- ta de seus trabalhos, por meio do Padre Geral ao Papa Clemente Quarto: o qual lhes acudio logo com hum Breve que achamos originalmente no Cartório do Convento de Bemfica, e he o seguinte.
Clemens Episcopns, servu^ servorum Dei, venerabilibiis fratrihus Ar- chiepiscopo Brachnrensi, et Episcopis, ac dilectis filijs Arciíidiaconis, De- canis, et alijs Ecdesiarum Prwlatis^ ac Redoribus Begni Portugallifx;, lul qnos lilercB istm pervenerint, salulem et apostolícam benedictionem, efe. Ah omnibufi Christi fidelibiis, sed ijs prcecipuè vos decet inveniri benévolos, qnos religiosa vita constituit landabiles, et Apostólica Sedes habere dignos- citiir in filios speciales. Sane dilecti filij Priores, et fralres Ordinis Prce- dicatoriun in regno Portugallicv gravem adnos transmisere querelam, qnod nonnulli vestrum ad eos jjropter Bcum, cxijus freqnentcr assistunt obseqiiijs, affectionem debitam non habentes, ipsos affligunt gravibus moleslijs, et pressuris, non permilleulcs cos uíi libere libciicUibus et indvJgenlijs sibi
4 I.IVilO IV DA HISTORIA DE S. DOMINGOS
ft Orditii prwdido ab Apostólica Sede concesm. Cnm autem ipsi, qnos prcsdida Sedes sub sua profectione recepit, ad Apostolicum proísidium pro- pter hoc duxerint humiliter recurrendum: uniuersitatem vestram rogamus et horlamur attentê per Apostólica vobis scripta pra^cipiendo mandantes^ quatenxis circá dictos Priores et Fratres pro Divina et nostra reverentia sinceré gerentes charitatis affectum, á qnibuslibet eorum molestijs, pressu- ris^ seu ifíjnrijs penitus desistniis: itd ipsos libertatibus et indulgentijs hitjusmodi uti libere permittendo, quod super hoc nom aliud adhibere consi- lium,sed teneamur vobis adadiones uberes gratiarum. JDatum Perusij VI f. Cal. Marti j Pontificatus nostri anno secundo.
Em vulgar responde assi.
Clemente Bispo servo dos servos de Deos, aos veneráveis irmãos o Arcebispo de Braga, e Bispos; e aos amados filhos Arcediagos, Deães, e outros Prelados, e Reitores das igrejas do Reino de Portugal, que estas letras virem, saúde, e Apostólica benção, etc. Como seja rezâo que todos os fieis Christãos achem em vós outros benevolência, e brandura: com aquelles he bem que sejais mais humanos, qiio a vida religiosa faz merecedores de honra, e louvor, e a quem a Sé Apostólica mostra ter em conta de filhos especiais. Nossos amados fillios os Priores, e mais Frades da Ordem dos Pregadores, que residem n'esse Reino de Portu- gal, se nos mandarão gravemente queixar, que alguns de vós não cor- rendo com elles com aquelle termo de caridade que por amor de Deos, a quem servem, sois obrigados : os molestais, e opprimis com pesadas vexações: e não consistis que usem com liberdade das isenções, privi- légios, e graças a elles, e á sua Ordem pela Sé Apostólica concedidas. Pelo que recorrendo á mesma Sede, por rezão do os ter tomado de sua proteição, e emparo, a todos universalmente rogamos, e encarecidamen- tevos exortamos por estas Apostólicas letras, que com encargo do preceito vos escrevemos, que trocando cliammenle pêra com elles, pola reverencia que a Deos, e a nós deveis, todo o rigor em affeito de amor, e brandura, desistais totalmente de os aggravar, e oíTcnder em qualquer cousa que seja : e os deixeis usar, e gosar livremente dos ditos privilé- gios, e liberdade8> de tal maneira, que nos fiqueis obrigando, não a to- mar novo conselho sobre a matéria, mas a vos dar polo que n^clle fi- zerdes muitas graças. Dada em Perosa aos XXíIÍ de Fevereiro, no se-
PARTICULAR DO REINO DE PORTUGAL 5
gurido anno de nosso Pontificado. (Resporide ao de mil e duzentos e ses- senta e seis.)
CAPÍTULO II
Dos trabalhos que passavão os Religiosos em quanto lhes tardou o remédio de Roma: e como cessarão todos com as letras do Pontifice,
Em quanto o Breve tardou em chegar ao Reino, crecerão os apertos contra os Frades em numero, e força : e como mal de contagião erâo gerais em todos os lugares onde residiâo. Parece, que queria o Senhor provar, e apurar a constância da Religião no crisol das tribulações, o dar-lhe muito que merecer. Porque chegou o negocio a tão fortes ter- mos, que resucitarão n^este tempo todas as semrezôes com que foi per- seguida em Itália, e França quando governava a Igreja o Papa Innocen- cio ÍV. Âs quais erão, que nas Igrejas dos Frades se não admittião se- culares nos Domingos, e dias Santos aos Officios Divinos, nem se prega- va n^eilas se não despois de acabadas as Missas das Freguezias : nem os Frades podião confessar pessoa nenhuma sem expressa licença do seu Cura: nem se lhes concedia pregar em sua casa, nem fora (1'ella, no dia que o Bispo pregava, ou hia ouvir Sermão a outra Igreja, com outras exorbitâncias semelhantes: ás quais se juntou agora mandar o Clero fazer petição em Roma, supplicando á Sé Apostólica que mandasse restringir as graças, e favores concedidos á Ordem. Mas esta sobeja diligencia foi a que deu inteiro remédio a todos os agravos dos Frades. Porque se aca- bou de certificar o Ponlifice da rezão que tinhão de se queixar, e do muito que padecião, pois tal requerimento havia contra elles: e doen- do-se com entranhas paternais de suas injustas afíliçôes, passou de no- vo outro Breve, (e não houve mais que três mezes em meio despois do que fica lançado no capitulo precedente) que foi de grande consolação pêra toda a Religião. Porque n'elle honra os Frades dando por certas, e justas suas queixas com huma clausula que só poremos, de que se entenderão as mais, que diz assi.
In quibusdíim toeis aliqnando illas, prout accepimus, persecuíiones et an- gustias suslinetis, ut vix sit vohis possibik, quod ibidem Conditori omnium valeatis, prout cupitis, dcvotum impcndcre famulatum. Hinc est^ quod nos vesirce providere qiiíeti^ ao malignorum malitíjs obviare volentes-, ele.
o MVRO lY DA IIISTOniA DE S. DOMINGOS
E proseguG adiante não só não diminuindo parte nenhuma dos favo- res antigos, mas ratificando todos com novas ventagens. Gumprio aqui o Pai de misericórdias sua antiga promessa (1), tantas vezes repetida do acudir prontamente aos gemidos, e orações dos perseguidos: e enxugou as lagrimas de seus servos, como tinha feito em outras tempestades, de que a Ordem foi combatida em tempos atrás, c particularmente na que atrás tocamos, succedida em vida do Papa Innocencio IV. que largamen- te conta o Padre Frei Fernando de Castilho (2), a qual ainda que foi geral, não sabemos que tocasse muito aos poucos Conventos, que então havia n'este Reino, e por isso escusamos referil-a. .
Com a chegada do Breve primeiro, que foi particular pêra este Rei- no, como temos visto: e com os encarecimentos do segundo, que era geral pêra toda a Ordem, foi Deos servido que amainasse a tormenta/ O Bispo àe Lisboa na hora, que lhe forão presentados por Setembro do mesmo anno, passou logo huma provisão pêra todas as Igrejas de sua Diosesi, a qual traduzida em vulgar lançamos aqui, pêra que se veja também por ella, como por confissão de parte, que escrevemos com pon- tualidade o que passou: e diz assi.
Malheus por mercê de Deos Bispo de Lisboa. Aos amados em Christo Diujão, e Cabido, e Arcediagos da Sé de Lisboa, e aos mais Prelados e Reitores das Igrejas da mesma cidade, e Diocesi saude^ e benção. Recebe- mos líumcã letras Apostólicas do Padre Clemente ÍV. que aqui vão inser- ias. Pelo que vos rogamos, e com preceito mutidamos a todos, e a cada hum de vós, que em conformidade do mandato do Papa Nosso Senhor, e por reverencia sua, e íiossos rogos tenhais, e mostreis ajfeito de caridade com os Priores, e Frades da Ordem dos Pregadores nellas declarados : e de todo desistais de lhes fazer moléstias., agravos, e semrezões : c livremente os deixeis usar de suas liberdades, e licenças. E todo o bem, e favor que aos ditos Frades fizerdes, porque os amamos com paternais entranhas, cu o agradecerei, como se a mi fosse feito; com apercebimento, que todo, e qualquer agravo que hoje em diante se lhes fizer (o que Deos não permita) liei de castigar, quanto em. Deos, e minha consciência posso, e devo, co- mo intentado, e feito a minha pessoa. Dada em Gamara aos dons de Ou- tubro jEra M.CCC.IUL (Que responde aos annos de Christo de 12GG.)
(1) Psalm. 90. (2; M. Fr. Fcrnand. de Cast. p. 1. liv. 2. cap. Dl.
PARTICULAU DO REINO DE PORTUGAL 7
Yalerâo-se os Frades pêra confirmarem o Bispo n esta boa inclina- ção de outra Bula que pouco despois teverão em Roma, a qual foi de grande importância pêra se acabarem de render os ânimos de todos os que llie faziâo contrariedade, e acrecentar nos seculares a devação da Ordem, vendo-a enriquecida de favores da Sé Apostólica, como diremos no Capitulo seguinte.
CAPÍTULO III
Que contem huma Bula, pela qual o Summo Pontífice mandou festejar em Portugal, e reconhecer por Santo a S. Domingos, e S, Pedro Martijr. Dd-se conta do muito que se estendeo polo Reino a devação de N, P. S, Domingos.
Favorecia o povo por todo o Reino a causa dos Religiosos com hum estremo de piedade, e bom zelo tão declaradamente, que isso lhes dava alento pêra sobrelevarem* o desabrimento da tribulação em quanto tar- dou o remédio. Mas do mesmo resultava azedar-se mais o clero, assen- tando que lhe cumpria não decer de seus intentos: o buscava rezões pêra os sustentar, e ao menos reduzil-os a litigio : se os Bispos não ata- lharão 'tudo, declarando, e como se declararão sem replica em favor da Ordem, Forão logo perdendo força as opposições, e impedimentos em que andava aceso, e cessarão de todo vendo as grandes honras, e favo- res com que a Sé Apostólica tratava os Religiosos em o novo Breve que publicarão apoz os primeiros: o qual se bem lhes grangeou credito uni- versal, foi também de grande consolação pêra todos os devotos, e bem intencionados em suas cousas, irá logo em vulgar pêra que nos escuse relatar de fora o que contém. He do mesmo Pontifice, e do mesmo anno.
Clemente Bispo servo dos seruos de Deos. Aos nossos veneráveis irmãos o Arcebispo de Braga, e Bispos do Reino de Portugal, a quem estas nos- sas letras forem mostradas, samle, e Apostólica benção. Da eoocellencia dos merecimentos, com que os bcmaventurados S. Domingos Confessor, c S. Pedro Martyr da Ordem dos Pregadores resplandecerão no meio das tre- vas doeste mundo, procedeo que a santa Sé Apostólica, despois de suas ditosas^ e bemaventuradas mortes^ os escrevesse no Catalogo dos Santos, mandando solenemente celebrar em cada hum anno as festas dos ditos Con- fessor^ e Martyr^ d honra, e gloria d^aquelle Senhor que a cada hum d'el-
8 LlVltO IV DA HISTORIA DF. S. DOMINGOS
les honnoit na terra com diversidade de milafjres^ e no Ceo com prémios de luz immortcd. O que já de anno atrás se tem largamente publicado 'pa- la Cliristandade, e deve ter chegado d noticia de todos por muitas vias, e principalmente por meio da Ordem, que polo dito Confessor por Divina inspiração foi instituida em amor do Ceo, e desprezo de tudo o da terra. E o dito Martyr a guardou com cuidado de se empregar todo na obser- vância da lei de Deos, e exercido de virtuosas obras, até chegar a mere- cer coroa de martyr io por honra, e defensão da fé Catholica. E pois não he possivel que cousa tão celebre, e tão publica seja de vós outros ignora- da, e dos mais féis desse Reino de Portugal não sabida: e he rezão que em todo o caso a estimeis^ e venereis. Por tanto vos pedimos, e rogamos a todos, e com encargo de preceito Apostólico mandamos, e em remissão de vossos peccados vos encomendamos que solenizeis a festa do dito Con- fessor aos cinco dias do mez de Agosto, e a do dito Martyr aos ^^ de Abril de cada hum anno pêra sempre: e façais que vossos súbditos as ce- lel)rem com a reverencia devida: e se tomem em vossos Calendários por lembrança, pêra que sua intercessão vos alcance dos tezouros do Ceo, aquillo que ambos tem já pêra si alcançado, e eternamente hão de lograr, e pos- suir. Dada em Perosa a 20 de Março no segundo anno de nosso Pontifi- cado.
Acabarão de ficar em socego os Religiosos, publicadas estas Bulas, desesperando todo o adversário de poder haver melhoramento contra tamanha força de favor. E como com a paz, e concórdia, todas as cousas crecem, por pequenas, e fracas que sejâo ; e as da Religião, que tem por si a Deos, com maiores ventagens se levantão, he cousa de espanto o grande fruito que por todas as partes do Reino fez esta Ordem, e a prontidão de vontade, com que foi recebida de todo género, e estado de gente a devação do Patriarcha S. Domingos. De huma cousa, e outra, lemos testimunho infallivel no excessivo numero de Igrejas, Freguezias, o Ermidas, e Confrarias que geralmente se forão logo levantando polo Reino, e permanecem hoje. E porque isto redunda em gloria do Santo, c esta historia he sua, sinto-me obrigado a dar noticia d'ellas. Mas são tantas que temo, (como hoje não ha historia sem particular emulo, ou persiguidor) arriscar o credito d'esta, se dando conta do numero, não apontar os lugares, cada hum de per si, pêra desengano dos escrupu- losos. Por isso iremos fazendo huma como ledainha d'ellas, que ainda
PARTICULAR DO REINO DE PORTUGAL 9
que SC estenda hum pouco, espero não será desagradável, porque se ve- rão de mistura algumas antiguidades notáveis : e se entenderá juntamen- te a diligencia com que aquelles bemditos Padres antigos nossos irmãos, semeavão a santa Doutrina, não perdoando a nenhuma comarca, por apartada, nem terra por áspera, nem aldeã por pequena, mas correndo por tudo, e procurando aproveitar a todos. Que claro está que não po- dião os povos aíieiçoar-se á devação do Santo, nem edilicar-lhe casas, sem terem novas d'elle ; nem podião ter novas d'elle, sem haver quem lhas levasse : nem lhas podia levar se não quem de raiz as soubesse, o milito de perto lhe tocasse o bem d'ellas, e da honra do Santo. E estes não podião ser outros se não Frades da mesma Ordem, e habito. D^onde íica entendido, c provado que andarão tudo, e não pouparão os pés, pêra podermos dizer por elles: Quam speciosi pedes evangelizantium bona! (1) Que fermosos são os pés dos correios de boas, e santas novas 1 E tam- bém se deixa ver que não foi ocioso seu trabalho, nem pouco o proveito que fizerão, pois assi acenderão nas gentes o amor, e estimação do San- to. Da qual podemos colligir (como nossa humanidade se move tanto por benefícios), que elle as devia obrigar com muitos, como na verdade obrigou ; e alguns encontraremos em casos tão peregrinos, que nos fi- quem forrando o trabalho de contar muitos. Pois onde houve valia, e poder pêra cousas grandes, certo he que não faltaria nas menores. E começaremos esta matéria no capitulo seguinte.
CAPÍTULO IV
Das Freguezias^ e Ermidas que ha da invocação de S. Domingos no Arcebispado de Braga.
Começando pola cabeça da Igreja de Portugal, e de toda Espanha, que he Braga, temos em seu Arcebispado sinco Freguezias da invocação de S. Domingos, que são em Yaldauta, termo da villa de Chaves: em Ferreiros : em Vai de Mendijs : em Soutello junto a Chaves, e em Mi- randella, onde chamão o Rego.
No mesmo Arcebispado temos quatro Ermidas de S. Domingos. IIu- ma junto da villa de Guimarães : outra na serra do Alvão, concelho da Ribeira de Pena, junto ao rio Tâmega : outra menos de mea legoa da
(1] Rom. 10. Isai 1%
10 LIVRO IV DA HISTORIA DU S. DOMIXGOS -
villa de Amarante da outra banda do rio, onde cliamao Freirijs, no con- celho de Gestaço. Esta ultima lie casa de muita romagem, e frequentada principalmente de enfermos das febres, que o povo com nome genérico chama maleitas. Sendo, como sâo, varias as espécies, € calidades d'ellas, contra todas tem este Santo especial patrocínio : e sâo sem numero os doentes d'ellas a que tem valido neste Reino com manifestos milagres. A antiguidade d'esta Ermida teve principio em outra tanto mais antiga, que por ir arruinando de velha, tirarão d'ella os vizinhos huma imagem do Santo de vulto, e a recolherão na concavidade de hum penedo. Mas estando assi desemparado nunca desemparou os que o buscavão em suas necessidades, que todavia era muita gente. Do que naceo juntarem-se hum dia os moradores do concelho : e como corridos de contarem to- dos, e cada hum por si mercês grandes recebidas do Santo em suas ca- sas, e o Santo não achar em nenhum mais gazalhado, que huma lapa : levantaram-lhe quasi de súbito huma boa ermida. E foi tal o gosto, e a devação que como em competência Imns tomarão á sua conta trazer toda a cal, outros dar a pedra, outros a madeira : outros pagarão officiaes, e jornaleiros. E houve homens que se não contentarão com menos, que to- mar á cabeça, huns a telha, e outros a pedra até a porem nas mãos dos officiaes. E isto sabem.os que succedeo muitos annos antes do de 1540, no qual foi dada á Ordem de S. Domingos a casa de S. Gonçalo. Mas a maior ancianidade se prova por escrituras muito antigas, que fazem men- ção de hum recolhimento de agoas aqui vizinho, chamando-lhe a poça de S. Domingos. E o nome de Freirijs também está mostrando, que de- via haver no lugar não só Ermida, mas companhia de Frades. A quarta Ermida he junto do lugar de Lixa, perto da villa de Amarante. Estaqui- zerão alguns dos vizinhos que mudasse o nome de S. Domingos em S. Uoque com medo da peste que os pcrseguio no anno de 1599. Mas es- torvou-o a lembrança que estava viva dos benefícios recebidos do pri- meiro dono : e ficou-se com seu nome antigo.
No Bispado de Lamego ha três Freguezias com nome de S. Domin- gos. A saber, S. Domingos de Fontello ; S. Domingos de Escurriquclla, que he no concelho de Fontarcada ; S. Domingos de Prado, no concelho de Caria.
No mesmo Bispado ha duas Ermidas do nome do Santo. Huma junto da barca de Molledo entre Meijãofrio, e Lamego ; outra junto da mesma cidade, que chamãoS. Domingos da Queimada. A esta foi em romaria el-
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• PARTICULAR DO ÍIEINO DE PORTUGAL i 1
Rei dom Affonso Quinto, segundo parece de sua Crónica, obrigado de muitos milagres que o Santo nella fazia. A tenção era que lhe alcançasse de Deos successor, porque tardava em ter filhos, e alcançou-lhos elle lais que forão santos : porque com este nome celebra a antiguidade a memoria del-Rei dom João segundo poios effeitos que hoje se vem em suas relíquias no nosso Convento da Batalha : e o mesmo possue dignis- simamente a Princeza dona Joana, sua irmam, Freira d^esta Ordem no Mosteiro de Jesu de Aveiro, de quem faremos larga menção no titulo d"elle. A mesma jornada com a mesma devaçâo, e intento fez despois el-Rei dom João segundo, seu filho, esíando de assento em Abrantes (1). Como não tinha mais que hum só herdeiro que era o Principe dom Af- fonso, dezejava dar-llie irmãos, quasi adivinhando sua desastrada morte, que foi em Santarém correndo hum cavallo em idade de dezeseis annos (2). iíe pratica commum dos moradores d'esta comarca que entre as mercês que aqui alcança de Deos pêra seus devotos, he huma dar-lhes filhos que lhe succedão, e alegrem a casa, e sejão vinculo de paz, e concórdia no matrimonio ; e acodem á Ermida todos os casados que se temem de esterilidade, e não se aclião frustrados em suas petições. Por estes, e outros beneficies que cada hora recebem do Santo, he costume de tem- pos immemorjaes virem a ella algumas Freguezias juntas, e particulares por dia da Ascensão de cada hum anno : sabemos que se juntão n'ella dezoito, que he hum grande povo. E pêra ser maior o merecimento da roniaria, he de voto, e obrigação de peccado mortal.
O Bispado de Viseu tem duas Freguezias da mesma invocação, que são S. Domingos de Mareco no concelho de Penalva : e S. Domingos de Parada no concelho de Castelmendo.
Tem mais três Ermidas, que são S. Domingos da Silva, entre Moxa- gata, e Celorico, junto a Vdla pouco, e S. Domingos de Orgens, pouco jnenos de huma legoa da cidade, que ainda hoje reíem o mesmo nome, cora quanto está já acompanhada de hum Convento de Rt^ligiosos meno- res. A terceira está em huma quinía que se chama Torneiros, perto da villa de Ladario. He fama que hum Frade, primeiro autor d^ella, fez le- var a pedra de junto a iiuma grande, e dura lagea que servia aos lavra- dores de eira, em que debulhavão os pães : e contão que quando os car- ros passa vão por cima d'esta lagea, deixavão n^ella impressos os sinais das rodas, como se fizerão caminlio por arêa solta, ou terra molle : e
(í) Garcia de nc2cr.dC; Ch;o!i. Jc-i-Rei D. João 11, cap. 49. (2) Ibi. cap. 131.
i2 LIVRO IV DA HISTORIA DE S. DOMINGOS
ainda hoje em dia se enxergão., O Frade, segundo a tradição, se chama- va Frei Domingos, e a lagea conserva seu nome, ou o do Santo.
No Bispado da Guarda ha três Freguezias. A saber, S. Domingos de Janeiro, que he huma das sinco Igrejas do Padroado da Coroa Real, nas quais os Reis apresentavão Vigários. E S. Domingos de Villa Cortez, termo de Celorico. E S. Domingos do Valpicca, termo de Castello bom.
As Ermidas são treze. A primeira he na villa de Fulgozinho. Onde aconteceo hum caso digno de se saber. Passava por ella hum homem lionrado, e í4co no anno de 1604. Entrou dentro a caso, ou por curio- sidade : e foi sem abrir portas, porque as não tinha. E achou muita luz, por ser de telha vam, e estar meio destelhada. A este trato respondia o do altar ; e huma imagem do Santo, que era de vulto, e representava extraordinária velhice, e todavia se conhecia ser sua polas cores, e insí- gnias, estava a huma ilharga do altar, encostada na parede, e não di- reita. Vendo tanta descompostura quiz remediar o que de presente po- dia : chegou á imagem, passou-a pêra o meio do altar, assentando-a di- reita, porque lhe vio fundamento bastante pêra isso. Mas em a deixando da mão, ella se veo por si ao chão. Sobresaltado hum pouco do caso, por lhe parecer que cahira sem haver occasião : tornou-a todavia a assen- tar no mesmo lugar. Porem não a tinha bem largado, quando tornou a cair. Aporfiou terceira vez arrimando-lhe pedras por escoras, e forão tantas que lhe ficarão como hum muro em roda, e caminhou pêra a porta. Não tinha dado dous passos, quando sente nova ruina na imagem, e no muro (parece que o Santo se queria ir trás quem se doera de seu desemparo.) Tocado o homem interiormente da estranheza do successo: Ora, disse, Senhor S. Domingos, muito bem vos entendo. Isto he que- rerdes mudar pousada : e fazeis bem, pois nesta vos vai tão mal. Eu prometo fazer-vos casa, em que estejais com mais decência, se não for com toda a que se vos deve. Tanto que chegou a sua casa, que era no lugar de Mello, em huma boa quinta, desobrigou-se do voto sem tar- dança, edificando a prometida obra, e pondo n^ella huma formosa ima- gem do Santo, lavrada de pedra de Ansam. E celebrou o dia da collo- cação, que foi o de sua festa, com solenidade, e custo : e d'ahi em diante ficou fazendo o mesmo cada anno. Não me culpe ninguém de faltar com o nome d'este devoto, que de boa vontade lhe déramos memoria, se o alcançara.
São as outras Ermidas : huma em Aldeã Nova, legoa e mea da villa
PAUTICULAR DO UEINO DE PORTUGAL 13
de Trancoso : outra junto de Castello Branco, que foi edificada poios vi- zinhos por particular devação, contra os lobos que davâo muita perda no gado : e foi tal o soccorro, que acharão no Santo, que a não largarão mais. Outra em Martinhel, termo de Abrantes, na qual se celebra seu dia com Missa solene, e pregação. Outra no termo do Sardoal. Outra junto de villa de Rei, que chamão S. Domingos da Serra. A três legoas de Abrantes está S. Domingos do Chouto. N'esta tem particular confra- ria todos os pastores das charnecas á roda, também á conta de se livra- rem dos lobos. E pêra festejarem o Santo mais folgadamente, e com mais concurso de gente, fazem-lhe a festa no mez de Setembro, despois do recolhidas as novidades. E solenizão o dia com meza franca a todos os que a querem. Chamão a isto Vodo, ou por rezão de se fazer por voto (o que o nome acena) ou porque como em voda se parte com todos li- beral, e abundantemente. Na villa de Celorico ha duas Ermidas do Santo, huma dentro da villa, outra no termo que chamão S. Domingos do La- giosa. S. Domingos de Souto de Casa, he no termo de Covilham, huma legoa do Fundão. No lugar das Serzedas he muito antiga a devação, e huma Ermida do Santo em que faz muitos milagres. Celebião-rne a festa na segunda oitava da Páscoa da Resurreição. Concorre muita gente da villa, e termo, e dos lugares vizinhos, e são as esmolas tão crccidas, que se affirma abrangem algumas vezes com elias os mordomos a resgates de cativos. A ultima de todas as d'este Bispado he S. Domingos da So- vereira. E porque merece capitulo particular, polo que n"ella ha que di- zer, damos-lhe o seguinte.
CAPITULO V
Da Ermida de S. Domingos da Sovereira : e de hum estranho caso que n'ella obrou nosso Senhor por intercessão do Santo, em favor de hum ca- tivo de terra de Mouros.
São Domingos da Sovereira he junto á villa de Penamacor : Ermida tão antiga, como a noticia do Santo n'este Reino. Porque ha tradição, e memorias que antes que el-Rei dom Dinis começasse a reinar (e come- çou no anno de 1269) já o Santo obrava n^ella muitos milagres. Cha- mou-se da Sovereira, por estar arrimada a huma tão grossa, e tão ve- lha, que com o tronco lhe fazia parede de huma banda, e com os braços, e ramada toldo, cobrindo-a toda. De tempos immemoriais he grande o
II LIVRO IV DA IIISTOUIA DE S. DOMINGOS
concurso de enfermos que a visiíâo, e de suos que vem comprir nove- nas: não só das terras vizinhas, mas d'outras muito apartadas : tanto de Portugal, como de Gastei la : e lie tal o successo, que o exemplo dos que recebem saúde, faz continuar a devação nos doentes de todo género de mal, sendo o principal patrocinio do Santo contra as maleitas, doença geral do povo, e dos pobres, que mata com febres, e frios, e fazem Im- ma semelhança das penas do Inferno : d*ODde lhe quadra o nome do ma- leitas, quasi dizendo malditas, como he tudo o do Inferno. Affirmão os antigos que nos tempos atrás estava tão confirmado o credito da casa polo beneficio que n'ella se achava, que se contentava a simplicidade, o l3om espirito dos romeiros com levarem consigo, quando se tornavão, das cortiças da sovereira : e tal havia que se não satisfazia cora menos qiíe cortar d'ellas, como de relíquias santas, com os dentes. E contão por cousa certa que em tempos, que havia curiosidade pêra se porem os casos por escrito, se justificarão muitos em numei^o, e raros em ca- lidadé, de que havia pergaminhos, que o descuido, e antiguidade foi acabando. Todavia conservou alguns em tradição a estranheza d'elles, e huma pintura que ainda dura no retabolo do altar, que como em outros successos antigos temos mostrado, sempre suprio bem as faltas da es- critura. Diremos somente dous de grande maravilha, e por ella bem di- gnos de memoria : hum que celebra a tradição ; outro que autorizão as pinturas.
O primeiro he, que veio a quebrar a sovereira com annos, e velhice de podre, e carcomida ; e caindo toda sobre a Ermida com peso bastante pêra arruinar huma torre, nem huma só telha quebrou : grande respei- to, e grande caso.
No segundo, que consta da pintura, por ser muito extraordinário, se fizerão algumas diligencias jurídicas por parte de quem isto escrevia, supérfluas todas a meu ver (se he supérfluo averiguar verdades com muita exacção) e todas conformarão com o memorial da pintura, e da tradição universal, que todavia se mantém viva entre os moradores ; e testimunha o seguinte. Reinando em Portugal el-Rei dom Affonso Tercei- ro, que foi Conde de Bolonha, succedeo cair em poder de Mouros hum homem natural de Penamacor. Escureceo o tempo as particularidades do nome, e calidades da pessoa, e da occasião, e lugar do cativeiro. Era o tratamento do amo, mais de enemigo, e tyranno, que de amo, e senhor. Poríjue sendo o pobre, cativo seu, o fazenda sua, assi se deleitava cm
PAUTICULAR DO REINO DE PORTUGAL VÓ
lhe fazer cruezas, como se fora Christão livre, ou cuidara que com os tormentos lhe acrecentava vicia. Nao tinha o atribulado outra consolação no meio dos traballios, senão era soccorrer-se ao Santo da sua terra, S. Domingos da Sovereira. E quando a força d'elies lhe arrancava algum gemido (que até o suspirar era culpa diante do bárbaro) sempre sahia envolto com o nome de S. Domingos. Era isto ião ordinário, que o ]\!ouro (devia ser algemiado, o d'aqui collijo, que o cativeiro seria em Granada, ou em outra terra de Espanha, das muitas que então, e mui- tos annos despois senliorearão os Mouros n'ella), veio a notar-lhe a lin- goagem. E porque não ficasse cousa em que deixasse de o martyrízar, perguntou-lhc hum dia que arenga era aquella, que trazia na boca con- tinua, quando devia chamar por Alá, nomear Domingos, Domingos (he Alá o nome, por quem os Mouros conhecem a Deos.) Alegremente con- fessou elle que trazia na boca, e tinha na alma, tendo por obra de fé, e animo catholico pronunciar claramente com a lingoa, o que sintia o co- ração: e foi proseguindo que era hum Santo, sobido pouco tempo havia da terra ao Ceo, e conhecido na sua por grandes maravilhas que obrava, o em quem elle tinha esperança que o havia de livrar de suas mãos. Caro lhe custou ao pobre a alegria, e liberdade da confissão, pagou-a com rigoroso castigo {)resenle, e com outro mais duro que não tardou. O primeiro não estranhou tanto, como era seu pão quotidiano, offere- cendo-o a Deos por honra da fé. Mas com o segundo se vio reduzido a termos de desesperação. Julgou o bárbaro que as esperanças do cativo se devião fundar em alguma deierminação, c traça de fugida : quiz acau- telar-se. Vindo huma noite cansado de servir, e traballiar o dia inteiro, encerrou-o sobre má cea em hum novo género de masmorra, que era hum arcaz grande, e forte, que despois de fechado com mais de huma chave, lhe ficou pêra inteira segurança servindo de leito. Mas parecen- do-lhe, que ainda assi o não tinha bastantemente arrecadado, hia cada dia acrecentando novas cautelas á sua desconfiança. Já lhe lançava alge- mas nas mãos, já adobes nos pés, despois de encarcerado na arca. E tendo-o assi, perguntava-ihe de cima com escarneo, se es-perava ainda no Santo da sua terra.
Considerando com attenção este successo, e outros que com nossos olhos vimos no cativeiro de Turcos, que hum tempo exprimentamos em Argel, cidade da Mauritânia : assentamos não ser possível, se não que era em ódio da Christandade, e como em vingança o que este inventava.
IG UVUO IV DA HISTORIA DE S. DOMINGOS
Porque qualquer entendimento, por mui rústico que fosse, podia alcan- çar que muito menos bastava pêra haver por bem seguro hum cativo morto de fome, e moido de trabalho. E a verdade he, que saneava a raiva, e o gosto, que tinha de fazer mal ao Ghristâo, com mostrar que nacia de cautela. Mas era já tempo, em que Deos queria declarar ao mundo, quanto acerta quem a este Santo busca, e ama : e quanto podem seus méritos, e intercessão diante da Divina bondade. Iluma noite, des- pois que o Mouro o meteo na triste masmorra na forma que temos dito, sobre algemas nas mãos, e outros ferros nos pós, lançou-lhe no pescoço hum grosso collar, das argolas do qual sahia huma forte cadea de trinta palmos, com que lhe foi dando voltas, e enrolando o corpo todo. E pcra dormir mais a sono solto, lançou sobre o alquicer que vestia, iium al- fange em tiracolo, e prendeo hum libreo que tinha ás argolas da aixa. Feita esta diligencia estendeo-se sobre ella, e contente do que tinha de novo acrecentado, bateo-lhe de cima, dizendo que se nâo esquecesse de fazer oração ao seu Domingos da Sovereira, que o viesse livrar de suas mãos. Bem he de crer que se não descuidaria o sepultado de tomar o conselho de seu enemigo, e oíferecer aos olhos da Divina misericórdia por meio do Santo, aquellas mesmas palavras, e ironia. Como fez n'ou- tro tempo Imm Rei Santo, acarta, e blasfémias de hum Gentio (1). Assise lançarão a dormir á noite ambos em terra de Mouros : assi amanhecerão amo, e escravo, em terra de Ghristãos, com grande distancia de legoas em meio, e á porta de S. Domingos da Sovereira, em Penamacor. Lou- yem-vos os Anjos, Deos dos exércitos, (jui facís mirabilia magna soliis. Abrio o Mouro os olhos, vio-se entre montes, e cercado de gente, que polo trajo, e espanto que fazia de sua vista, conhecia ser Christã. Es- pantava-se o enterrado na arca, ouvindo lingoagem da sua terra, e mui- tas vozes juntas. Mas nem amo, nem cativo se atrevião a dar credito hum aos olhos, outro aos ouvidos : ambos havião que era tudo sonlio. Em fim como não he fácil de enganar o sintido da vista, e o Mouro vio que tudo o desenganava, e que estava entre Ghristãos, não por sonhos, senão com effeito, que via Igreja, e ouvia som de sinos, que a iníideh- dade sobre tudo aborrece, acabou de cair que não erão palavras mal fundadas as do seu cativo, quando tanta coufiança fazia do seu S. Do- mingos. Lembrava-se de tudo com estranha confusão, e só desejava sa- ber por ultimo desengano se estava em Portugal. Gomo tinha conheci-
(1) 4. U<'jí. It).
PAUTiCLlAU DO UEIAO DE POUTCCAL 17
níi(3nto das lingoag-ens de Espanha, perguntou a hum de muitos, que o rodeavão espantados de tal invenção de romeiro, e tais alfaias de roma- ria, como chamavão a terra, e o sitio em que estavao. Quando souhe que tinha diante dos olhos S. Domingos da Sovereira, ficou como fura de si de pasmado, e attonit > : e conformando-se com o tempo, quiz co- meçar a grangear com cedo quem por boa conta trocadas as sortes ha- via de ser seu senhor.
CAPITULO VI
Prosegne o milagre do cativo: apontão-se algumas particularidades, que o confirmào.
Foi o Mouro logo revolvendo hum molho de chaves que lhe pendião da cinta, e abrindo cadeados, e fechaduras da sua arca. Chegarão os circunstantes com curiosidade a ver que peças traria pêra offerecer em tão grande arca o romeiro estranho: se não quando dão com os olhos em Imm Lazaro sepultado, e em rosto, e cores defunto: mas vivo na voz, e envolto em novo género de mortalhas de ferro: e tão carregado d'el- las que de nenhum membro era senhor, senão só da lingoa, com a qual, voz em grita chamava por S. Domingos, como quem tinha já sintido onde estava. Pasmão todos, virão-se huns pêra outros fazendo cruzes sobre si, e pondo os olhos no Ceo. Lanção-se logo á arca, querendo cada hum ser primeiro a soltar o aferrolhado: mas erão taes as prisões, que só o Mouro as entendia, porque pêra cada huma tinha sua chave. Solto em fim sem outra palavra na boca mais que S. Domingos, deixa-se cair em terra, abraça-se com ella, e bcija-a, e vai-se prostrar diante do al- tar do Santo.
Despois de lhe dar graças com silencio, e lagrimas, tornou pêra os que o esperavão alvoroçados, e desejosos de entender a aventura, ou encantamento (que isto parecia mais próprio) com que ali entrara: visto como não aparecião carros, nem azemalas, que pêra tal peso menear erão necessárias. Então lhes deu larga conta de sua vida com todo o processso de trabalhos, e duro cativeiro que temos referido : e sobre tudo da oração que sempre fizera a S. Domingos, encarecendo por re- mate com muitas lagrimas quanto devião estimar, venerar, e servir aquelie Santo, e haverem-se por ditosos em o terem por seu advogado, porque a elle confessava dever a liberdade em que o vião por meio tão estra-
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nho, e milagroso: e de si affirmava, e desde logo promettia não fazer outra cousa em toda a vida, senão servil-o n'aquella casa, sem já mais se apartar d'elía. Logo se foi dando a conhecer a parentes, e amigos d'outro tempo: circumstancia que de novo accendeo a devação do Santo em todos, vendo que obrara tal maravilha por hum seu natural. Ficou a arca na Ermida, e os ferros todos: e até as chaves se pendurarão nas paredes por tropheos do Santo : e nella se vem hoje em dia o collar, algemas, adobe, e cadea, e arca, instrumentos de martyrio de hum só homem, bastantes pêra martyrizar a muitos juntos. O cativo compria sua promessa, viveo, e morreo ermitão do Santo. O Mouro penetrada da grandeza do milagre pedio o santo bautismo (divina força da predes- tinação) e ficou em cativeiro livre, e ditoso servindo a Ermida, e acom- panhando o seu cativo. E por morte forão enterrados juntos a porta d'el- la, onde os cobre ambos huma só campa com hum letreiro que o de^ clara.
Levou a fama por todo o Reino as novas de tão fermoso milagre com grande gloria de S. Domingos, e consolação de seus devotos: e obrigou a muita gente de todos estados a irem ver por seus olhos o que ouvião. El-Rei dom Dinis tanto que tomou o sceptro, sendo infor- mado da certeza do caso, visitou a santa casinha: e entre outras esmol- Ias que lhe deixou foi huma perpetua, que chamão dos perdidos da villa de Penamacor, e seu termo, que erão da Coroa, e então se houve por boa mercê, e o que d'ella procede goza hoje a confraria. Mas aqui se me oíTerece nova rezão de queixa da minha Religião, e não só dos tempos antigos: que sobre não pedirem estes ferros pêra os engastarem em ouro, como deverão, aconteceo n'elies tanto desemparo, que houve quem se atreveo a tirar da Ermida a cadea; e leval-a á casa da prisão publica de malfeitores a servir de corrente pêra os aferrolhar. A restituição deve- mos a hum Padre de S. Francisco, que doendo-se como bom irmão de tal descuido, com tanta vehemencia o aíToou aos naturais, pregando na casa, que de corridos, e aíTrontados procurarão logo a sua cadea. Era Provedor da Comarca o Licenciado Estevão da Veiga (são estes Prove- dores Ministros Reais, a cujo cargo está olhar polo beneficio geral das lerras, e juntamente polo património Real) constando-lhe o que passava mandou ver a cadea por ofiiciaes. Declararão por juramento serem de obra mourisca, e muito antiga trinta, e três fusis d'ella, que se esten- dião a Ires braças: c serem de feitio moderno, e muito diílerente ou^
PARTICULAIl DO REINO DE PORTUGAL 19
tros, com que estava acrecontada. O qae visto raandou-a logo cortar, e tornar á Ermida a sua parte.
Na arca começava também haver pouco cuidado: porque cada ro- meiro queria levar comsigo memoria d'ella, por acharem que lhes valia nas maleitas (despois que faltarão as cortiças da sovereira que os annos tinhão consumida) e a continuação de cortarem n'ella, inda que pouco, porque a madeira he mui ferrenha, promettia dano para o tempo adiante. Acudio-se-lhe, recolhendo-a no vão do altar, e fezerão-llie porta pêra ficar guardada, e poder ser vista dos devotos. Mas não valendo a cau- tela contra hum poderoso da terra, acudio o Santo por si. E foi o caso, que este homem, ou fosse curiosidade, ou devação indiscreta, cortou da caixa hum pedaço, e ficou-se com elle. Não passarão muitos dias que se vio salteado de furiosas maleitas, e chegado a ponto de tratar da al- ma, entre os descargos apontou o piadoso furto, e fez entrega ao Con- fessor pêra que o restituísse. Foi cousa averiguada, que ficou logo livro do mal. E porque se visse, que nem a doença, nem a saúde forão a caso, tar- dando o Confessor com a restituição, derão sobre elle outras tais febres, que o não largarão até que o pedaço se tornou ajuntarão lugar d'onde sahira: sobre o qual se poz um papel com a relação do successo. Mostra-se den- tro na arca inda hoje o alquicer do Mouro, que em partes he variado de listas de cores ao modo dos alambois que se sohião tecer n'este Rei- - no: e com passar de trezentos annos que aqui se guarda, está inda são, e rijo. No retabolo está pintado o successo como atrás dissemos de fei- tio, e mão muito antiga. Sem embargo de tantos documentos, que h- zem a historia certíssima, achando-se na villa de Penamacor quem isto determinava escrever pedio ao Juiz de Fora huma informação de testi- munhas em forma de direito. Era Juiz o Licenciado Estevão Nogueira Cabral, o qual no despacho que deu pêra se fazer a diligencia fez o offi- cio de testimunha, dizendo ao pé da petição, de sua letra, e sinal o se- guinte.
O que o siipplicnnte diz passa assi na verdade, e á porta da Ermida do bemaventurado S. Domingos estão enterrados este Christão cativo, que huma mnnham foi achado à porta do dito Santo metido em huma arca^ que está hoje na dita casa, com o Mouro senhor. Perguntcm-se as teste- munhas, etc.
Esta informação, e estormento de testimunhas está guardado no Car-
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tório do Convento de S. Domingos de Bemíica. Mas á vista de tal mila- gre ninguém me culpará, se empregarmos outro capitulo em buscar no- vas Igrejas, e outras memorias de tão grande Santo.
CiPITULO VIII
Do sitio, e nomes de oiUras Freguezias e Ermidas, que ha no Iteino, da invocação de S. Domingos.
No Bispado do Porto temos só duas Ermidas. A primeira he S. Do- mingos de Ataes, quasi liuma legoa da cidade polo rio acima, e da mes- ma banda. Está situada no cume de hum monte que cliamâo Ataes. E alguma gente a nomea pola Ermida que matou o boi, querendo fazer mysterio de hum caso que podia ser muito accidental : o qual foi, que recolhendo-se hum boi dentro por fugir ás moscas, ou ao Sol, acertou de se cerrar a porta, que achou aberta á entrada: e como a nâo poude abrir, nem em muitos dias acudio por ali gente, foi despois achado morto. Outra temos entre o Mosteiro de Santo André de Ansede, e o lugar de Portomanso acima do Douro. He tão antiga, que de tempo im- memorial está mandado polas Constituições do Bispado, que toda esta Freguezia vá a ella em procissão na terceira Oitava da Páscoa de Ues- surreição: e nos três dias das Ledainhas de Maio: e na primeira segun- da feira do mez de Agosto. xMandou-a derribar o Padre Frei Estevão Leitão sendo Prior de Lisboa, por estar muito velha, e ser pequena : e no mesmo lugar fez levantar a que hoje vemos. Obrigou-o a este bene- ficio a anexação que o Pontífice fez do Mosteiro de Ansede, em cujajur- dição cae, ao Convento de S. Domingos de Lisboa, como atrás temos dito.
O Bispado de Coimbra tem da mesma invocação duas Freguezias. S. Domingos da Castanheira, na Ribeira de Pêra, que he annexa á Ma- triz do Pedrógão grande. E foi arezão de se edificar aqui, que andan- do huraa minina guardando gado, deu com huma imagem de vulto en- talada entre dous penedos, e sem saber de que Santo era, nem se era de Santo, com santa simplicidade continuava em fazer oração diante d ci- la. Vindo á noticia dos vizinhos, e moradores da Ribeira, acudirão a vel-a, e achando que era de S. Domingos, nos sinais do habito, e insí- gnias que trazia comsigo, ediíicarão-lhe no mesmo lugar huma i)equena
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Ermida na qual fundarão despois Freguezia. Porque como da Ribeira ao Pedrógão, d'onde erão freguezes, ha duas grandes legoas, e de fragoso caminho, aproveitarão-se da commodidade alargando a Ermida. E haverá cento e vinte annos que foi fundada, porque pouco mais ha que se descobrio a imagem. A outra Freguezia he S. Domingos da Togeira : e outras duas ha no caminho que vai de Coimbra pêra a cidade da Guarda, que são: S. Domingos do lugar de Lava Uabãos: e S. Domingos do lu- gar de Eiras.
As Ermidas doeste Bispado que chegarão á nossa noticia são oito: S. Domingos da Redinha: da Povoa: de Góes: de Cernache : de villa de Rei: da villa da Sertam : e outra a huma legoa da mesma villa da Sertam. N'esta ha huma solemne confraria do Santo com obrigação de Missa todos os Domingos, e dias santos: e fazem-lhe festa quatro vezes no anno: as três nas ultimas oitavas de Natal, Resurreição, e Pentecostc: e a outra, que he a mais festejada, por dia de Santo André ultimo de Novembro. A oitava Ermida he S. Domingos em Anadia, na Freguezia de Santiago da Mouta junto á villa de Ferreiros : está posta no cabeço de hum alto monte, e dizem que foi antigamente Freguezia. Contão-se n'ella muitos milagres do Santo, diremos hum só. Deu hum anno na várzea de Quintella, que he da Freguezia, huma praga de bicho, que sendo os milhos já crecidos lhes rohia, e cortava o pé, e se peixlia tudo sem remédio. Juntarão-se os vizinhos, forão-se em procissão á Ermida, tomando o Santo por advogado de suas searas. Foi cousa succedida á vista, e olhos de todos. Aparecerão repentinamente nuvens de andori- nhas que cobrião o Sol, e como se forão mandadas decerão ao bicho, e tal guerra lhe fizerão, que deixarão a terra limpa levando pêra si bom pasto.
Entre Leiria, e o Becco ha huma Igreja de três naves, cercada de edifícios arruinados: em (]ue ainda se enxergão sinais de claustros, e offi- cinas grandes. Chamão-lhe o mosteiro, e persevera tradição, que o foi nosso. Com isto diz ver-se no altar mór huma devota imagem do Pa- dre S. Domingos de vulto, e aíTirmarem os moradores dos lugares vi- zinhos, que faz Deos por ella muitos milagres, e he buscada, e visita- da de muitos devotos a Igreja. E he cousa certa que ha n'ella huma pe- dra, da qual, sem haver memoria nem rezão do que move as gentes, levão o pó que raspando podem colher pêra reliquia, e mezinha contra as febres, e d'isso está bem comida, c cavada.
2f2 J.ivno IV DA HISTORIA DE S. DOMINGOS
Na villa (le Tentiiguel havia em tempos atrás hum hospital, do qual durão memorias frescas, que foi edificado debaixo dos nomes de S. Pe- dro, e S. Domingos. Agora está dado a Freiras Garmehtas.
O Arcebispado de Évora deu ao Santo duas Freguezias, huma junto á villa de Seda: outra no termo de Avis.
Deu-lhe mais quatro Ermidas: huma no termo da villa do Redondo: outra quasi duas legoas da villa do Ourique. E em Monte mór o Novo teve o nome de S. Domingos huma Ermida situada na praça velha: que agora o tem de Nossa Senhora da Paz: e foi a causa da mudança edifi- car-se na villa Convento da Ordem. Em Grândola levantou Ermida ao Santo huma Francisca Nunes; na qual se llie faz festa com solenidade todos os annos.
Na Igreja matriz do Torrão, ha hum Altar, e Confraria deste Santo, que teve origem de residirem no lugar em tempos passados, algumas mo- Iheres virtuosas, com o habito da terceira Ordem Dominica : pêra as quais se devia edificar hum Mosteiro, que anda em tradição, houve junto d'esta villa, e em distancia de duas legoas das Alcáçovas, onde está huma herdade que a esse respeito, segundo dizem, se chama inda hoje de S. Domingos. Vindo a desfazer-se, que devia ser por estar em terra erma, e perigosa pêra habitação de molheres, passarão os moradores áo Torrão a imagem pêra a matriz. E inslituirão-lhe a confraria que dissemos.
No Bispado de Elvas ha huma Freguezia do mesmo nome. .,
No de Portalegre huma Ermida, a huma legoa da cidade.
No Reino, e Bispado do Algarve, se principiarão duas Vigairarias d a Ordem. Huma em Cinis que com muito fervor fundava Jorze Furtado, Fidalgo honrado: outra em Loulé. Ambas teverão Frades, e ambas so largarão com bons fundamentos.
O Arcebispado de Lisboa se adiantou com o Santo em muitas Fre- guezias: são seis as de que pudemos saber os nomes. S. Domingos das Abitureiras na Povoa do Conde. S. Domingos de Vai de Figueira no termo de Santarém. S. Domingos de Palha Cana, no termo deAlanquer. S. Domingos das Marreiras huma legoa da Eiriceira. S. Domingos da Fanga da Fé. E a ultima S. Domingos de Rana termo de Cascais. Esta Igreja da Rana he sagrada de tempo immemorial: fazem os freguezes a festa principal do Santo na primeira Dominga de Maio, e chamão-lhe a Sagra: eleve ser, porque em tal mez se sagrou a Igreja. Outra celebrão
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pòr dia de Corpus, com toda a pompa que o lugar pode, a que acodem muitas cruzes, e bandeiras das Freguezias dos termos de Cascaes e Cin- tra, e algumas do de Lisboa.
Ha mais quatro Ermidas. Huma nos Coutos de Alcobaça, onde cha- mâo Cornaga. Outra em S. Pedro dos dous Portos. Outra onde chamão a Chancellaria junto a Torres Novas. E n'esta villa ha também particu- lar Altar, e Confraria do Santo. A quarta Ermida he em Obedos, assen- tada sobre a coroa de hum empinado monte : onde por ser tal, e vizi- nho ao mar, se acende fogo todas as noites, em beneficio dos navegan- tes fazendo oííicio de Faro, como pêra conhecimento da costa. E fica o Santo aqui acompanhado de parte de suas insígnias, porque o alto da capella k; o que serve de farol,
Nâo tenho duvida que se fizéramos diligencia mais apertada, achá- ramos maior numero: mas bem bastão pêra prova do intento, vinte seis Freguezias, quarenta, e duas Ermidas, e muitas confrarias espalhadas por todo o Reino. Mas he tempo de tornarmos ao fio da historia, que nos temos divertido muito.
CAPITULO VIII
Da antigiiidoule , c princípios, e fundação do Convento de Nossa Senhora dos Marlyres da cidade de Elvas.
A Cidade de Elvas he hum dos importantes lugares do Reino, por antiguidade de edificio, grossura de terras, e numero de ricos, e hon- rados moradores. Foi fundada poios Elvos, gente Franceza da Provín- cia Narbonense. Os Romanos lhe chama vão Turres albw. De huns, e ou- tros podia proceder o nome que hoje tem. Anda na Coroa de Portugal despois da perda de Espanha, desd'o tempo del-Rei dom Sancho pri- meiro, que a tirou do poder de Mouros, no anno do Senhor de 1200, o titulo de cidade he n'ella moderno, merecendo-o de longe por boas razoes. Alcançou-o despois que foi feita Episcopal, por el Rei dom João terceiro. Aqui tem a Ordem dous Conventos : hum de Frades, e outro de Freiras, ambos bem dotados por virtude, e liberalidade dos vizinhos. O dos Frades de que nos toca dizer agora, teve princípios muito atra- zados do tempo em que vamos, e por isso quasi apagados na memoria dos homens. A meia Icí^oa da cidade havia huma devota Ermida do ti-
^^, LIVRO IV DA IIISTOIVIA DE S. DOMINGOS
tulo de Nossa Senhora da Graça, situada cm liuma montanha fragosa, de penedias, e intratável enlâo por espessura de matos, agora aberta toda, e bem cultivada. N'el!a se airirma que residirão alguns Frades, nos- sos, dos primeiros que começarão a pregar polo Reino. O que he bem de crer, polo que temos visto nas poucas commodidades que aquelles primeiros irmãos nossos, cheios de espirito do Ceo, buscavão pêra o corpo, escolhendo viver nas serras pêra se mortificarem, e darem a en- tender aos povos, que d'el[es não querião mais que as almas. Dura hoje na Ermida em penhor do que dizemos, huma imagem do Padre S. Do- mingos, pintado a fresco sobre o arco do cruzeiro: e ha pouco tempo que durava no altar outra de vulto, que por consumida dos annos, e roida do gusano, como era de madeira, mandou hum visitador que se tirasse por reverencia, e decoro do Santo. Em roda se vem ainda ruí- nas, que mostrão a quadra do Claustro, e suas colunas, e huma cisterna em meio, e lanços de oíficinas. E porque tudo conforme, retêm a mon- tanha hoje em dia o nome de S. Domingos: e huma ponte que se passa ao pé d'ella de boa fabrica, e de hum só arco, por rezão das muitas agoas que decem do alto nas invernadas, mostra ser fabrica religiosa ; l)orque como em agradecimento, e memoria de seu autor lhe chamão do Frade. E porque digamos tudo, huma pequena Ermida que se en- contra á subida da serra, com ser da invocação de S. Jeronymo está to- davia acompanhada de huma imagem de nosso Santo. Sofrião os Reli- giosos a vivenda cansada, e áspera do monte, em quanto hia também quebrando, e abrandando com a santa doutrina a secura, e fereza dos corações Portuguezes, que sendo de seu natural inclinados ao bem, o exercício das armas, a que anda vão entregues pola necessidade conti- nua, em que os tinha a vizinhança dos Mouros, era causa de andarem remontados no que tocava ás almas. Forão libertando as terras, e come- çando a ter alguma quietação: foi o fogo da palavra divina também pe- netrando, e fazendo seu oílicio nos bons ânimos: logo os mesmos hou- verão por crueza custar tão caro aos Religiosos o beneficio que lhes vinhão fazer, procurarão ahviar-lhes o trabalho, e encurtar-lhes o cami- nho. Assi se começou a tratar de novo Convento em huma herdade mais vizinha á cidade. Mas parecendo que ficavão ainda longe, hum vizinho honrado por nome Estevão Martins tratou com os do governo trazerem- nos pêra a cidade a hum sitio pr\^ado com os muros, onde o mesmo possuía hum pedaço de terra, que ao parecer seria capaz de Mosteiro.
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Ficando todos d"acordo dorão conta aos Frades que andavao já com as mãos na pedra, c cal da segunda morada (erão estes Frei Estevão Men- des, e Frei Álvaro Pires) pedirão-lhes que nao perdessem ali tempo, pois linliâo melhor posto na terra que olTerecia Estevão Martins. Porque além de ser capaz de Convento, partia com outra da Coroa, em que havia huma boa ermida da apresentação Real, que seria fácil cousa alcançar-se del- Rei, e ficarião logo com Igreja. Dei\arão-se os Religiosos persuadir vista a maior commodidade. Seguio logo a doação, que he feita em nome dos ofliciaes da Camará, e Concelho, e diz assi.
Nútum sit omnibus hominihus tam prwsentibus, quanx fuluris, quod nos Prcetor, Judicesque et concilium deElbis, et ego Stephanus Martimis, et uxor mea Maria Petri, de nostro beneplácito^ et bona voluntate damus et concedimus vobis Fratribus Ordinis Fratrum Prwdicatorum pro ani- mabus noslris ad xestri Ordinis Monasterium construendum, et omnia alia facienda, secundum quod vobis videbitiir expedire, hwreditalem quam ha- bemus in termino de Flbis, in loco qui dicitur Rossio, cvjiis isti sunt ter- mini. In oriente Rodericus Pelagij. In occidente Riparius de Cancha, In Aquilone via publica de Cocena. In Africo via publica de Jurumenia. Da- mus auleni vobis ipsam hwreditatem, et concedimus libere et pacificé cum iugressibus et egressibus et omnibus pertinentijs suis: ut habeatis eam et posndeatis in perpeluum, et faciatis eliam de ea, secundum voluntatem vestram^ et sicut videritis expedire. Et si aliquis venerit, qui hoc factum frangere voluerit^ vel etiam impedire^ vel in aliquo contrndicere, tam de nustris, quam de exlr anéis: tam de prcesentibus, quam de futuris, non sit ei licilum : sed pro sola tentatione quantum quwsierit, tantnm nobis in duplo componat, et domino terrw aliud tantum: et insuper Dei maledictiO' nem, et totius Concilij indignationem incurrat. Et in poenam per annum a villa de Elvis et suis terminis expellalur. Nos verá supradictum Conci- lium cum Stephano Mar tini et uxore ejus Maria Petri lianc charlam fieri 7nandammus^ et hanc dunationem fecimus fieri Fratri Stephano Menendi^ et Fratri Álvaro Petri., qui prwdictam hcereditatcm d nobis pro suo or- dene libere receperunt. Et ut factum nostrum majus robur obteneat firmi- ta tis, hanc charlam nostroi donationis per manam Martini Petri puhlici tabellionis de Elvis fieri fecimus, et sigilii nostri Concilij munimine robo- rari. Fada charla mense Martij XVII. Calend. Aprilis uEra M.CCC.IIIL Qui prcesentes fiierunt Fernanáus Martini Curulelo iunc Prcetor. Stepha-
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fius Fernandi, et Joannes Menendi tunc Jiidices, et insuper per totitm Con- cilium: et ego Martinus Pelri publicus tabeUio deElois per mandatum Pree- toris et Judicum, et Concilij prcedidis omnibus interfui, et haiic literam própria manu scripsi, et signum meuni apposui in testimonium hvjus rei.
Traduzida em vulgar diz o seguinte.
Saibâo todos os presentes, e por vir, que nós o Corregedor, e Jui- zes, e Concelho de Elvas : e eu Estevão Martins, e Maria Pires minha molher, de nosso beneplácito, e boa vontade damos, e doamos a vós os Frades Pregadores, por nossas almas huma terra, e herdade que temos no termo de Elvas no lugar que chamâo o Ressio pêra fazerdes hum mosteiro, e o mais que bem vos parecer, cuja demarcação he a seguin- te. Ao Nacente parte com terra de Rui Paes. Ao Poente com ribeiro de Gancha. Da banda do Norte com estrada pubhca de Cocena: e do Sul com caminho que vai pêra Jurumenha. E a dita herdade vos damos, é doamos livre, e paciíicamente com todas suas entradas, e saidas, e pertenças pêra que seja vossa, e a possuais pêra sempre, e façais d'eUa como fôr vossa vontade, e como virdes que vos está melhor. E se polo tempo em diante vier alguém que esta doação queira desfazer, ou en- contrar, ou embargar, ou contradizer em todo, ou em parte, nâo lhe seja pêra isso doado lugar, quer seja pessoa de meu sangue, quer dos que hoje vivem, quer dos que estão por nacer. Antes queremos que só por tal cousa intentar, vos pague o dobro do que demandar, e outro tanto pague a el-Rei. E sobre tudo encorra na maldição de Deos, e na ira, e indinação de todo este Concelho : e seja condenado em hum anno de degredo pêra fora de villa, e termo. E nós o sobredito Concelho jun- tamente com os ditos Estevão Martins, e Maria Pires sua molher, man- damos passar esta carta, e escritura, e doação a Frei Estevão Mendes, e Frei Álvaro Pires, que em seu nome, e de sua Ordem a dita terra, e herdade aceitão. E porá mais firmeza a mandamos fazer por mão de Mar- tim Pires publico tabalião de Elvas, e sellada com o sello d'este nosso Concelho aos desaseis de Março da Era mil e trezentos e quatro (respon- de-lhe o anno de Christo de 126Gj sendo presentes Fernão Martins Cu- rutelo Corregedor, Estevão Fernandes, e João Mendes Juizes, e todo o Concelho junto. E eu Martim Pires publico Tabalião de Elvas, que por mandado do Corregedor, Juizes, e Concelho a tudo fui presente, e de minha mão a escrevi, c cm testemunho de verdade n'ella puz meu sinal.
PARTICULAR DO REINO DE PORTUGAL S?
CAPITULO IX
Faz el-Rei doação à Ordem da Ermida de Nossa Senhora dos Marlijre^ pêra assento do novo Convento. E o Bispo de Fvora da sua licença pêra a obra.
Grécia na cidade o gosto de agasalhar os Religiosos como a compe- tência. Tinha hum Rui Paes huma boa courela. de terra que partia ao Nacente, com a que Estevão Martins doara, como parece da escritura. Vendo que vinha a propósito pêra o Convento offereceo-a de boa vonta- de : e não tardou em fazer sua escritura de doação elie, e sua molher Elvira Gomez. Era o nome da erdade Almocovára : e a doação se fez no mesmo dia, e quasi polas mesmas palavras da primeira: e ambas em seu original se guardão no Cartório do Convento. A rezão de a Camará G Governo da cidade interpor n'ellas sua autoridade devia ser, ou porque era necessário seu consintimento pêra o ediíicio: ou por ventura, por serem as erdades foreiras ao Concelho, visto estarem no Ressio, que ordinariamente pertence ao commum da terra, e não íicava sendo valio- sa a doação sem autoridade, e licença sua.
Suspenderão os Frades a obra nova que intentavão, com a certeza, e melhoria d'este sitio: e poserão em ordem haver d'el Rei a Ermida vizinha de Nossa Senhora dos Martyres (que assi era sua invocação.) Gastarão-se mui -os dias no requerimento. E em fim vindo el-Rei por certa occasiâo a Elvas (era dom Aiíonso terceiro que foi Conde de Bo- lonha) folgou de fazer mercê d'ella á Ordem, e dar-se por padroeiro do futuro Convento, como vimos por huma provisão sua, a qual tirada do original que está no Convento, lie a seguinte.
In Christi nomine et ejus gratia. Noverint universi pra^sentem charlam inspecturi, quód ego Alfonsus Bei gratia Rex Fortugallensis und cum uxore mea Regina Bomna Beatriz, illastris Rcgis Castellw et Legionis fi- lice, et filijs et filiahus nosíris Infantihus domno Dionysio, et domno Alfonso, et domna Blanca et domna Saneia do et concedo in perpetutim Fratribiis Proedicatoribiis eremitagium menm, qtwd vocatur Santa Maria de Marty- ribus apud Elvas cam tota illa hwrcditate, qucs pertinet ad ipsum eremi- tagium ad construendum ibidem Monasterium Ordinis Prcedicatorum da honorem Dei, et B, Marice et B. Bominici. Et hoc facio mnore Bei, et
%B LIVRO IV DA HISTORIA DK S. DOMINGOS
pro remédio animce mece et parentum meoncm, et iit sim particeps ín om- nibus bonis et orationibus ejnsdem Ordlnis. Et ut hoec donalio perpetimm robur obtineat firmitalis dedi eisdem Fratribus lianc meam charlam paten- tem mei sigilli munimine consignatam in testimonixim rei gesta;. Datxim apud Elvas XX. die Febrarij Rege mandante per Joannem Suerij Cone- lium, et per Rodericitm Garciw de Pavia. Joannes Vincentij notavit ,Era M.CCC.V.
Em Portugaez responde assi.
Em nome, e graça de Christo. Saibâo quantos esta carta virem, que eu Affonso por graça de Deos Rei de Portugal, juntamente com a Rai- nha dona Breitiz, filha do illustreRei de Castella, e Lião minha moHier: e com os Infantes dom Dinis, e dom AíTonso, dona Branca, e dona San- cha meus filhos, e filhas, dou, e largo pêra sempre aos Frades Prega- dores a minha Ermida de Elvas, que chamâo Santa Maria dos Martyres, com toda a herdade, e terra que lhe pertence, pêra effeito de edificarem lium Mosteiro da sua Ordem á honra de Deos, e da Virgem Maria, e de S. Domingos. E isto faço por amor de Deos, e pola salvação de mi- nha alma, e de meus pais: e pêra participar de todas as obras, e ora- ções da mesma Ordem. E porque esta doação que assi lhes faço tenha vigor, e firmeza pêra sempre, lhes passei a carta presente, autorizada, e sellada com o sello de minlias armas em testemunho de verdade. Da- da em Elvas a XX. de Fevereiro. El Rei o mandou por João Soares Coelho, e por Rui Garcés de Paiva. João Vicente a escreveo na Era de M.CCC.V. {Responde aos annos de Christo 12G7.)
Com isto parecia que não faltava nada aos Frades pêra inteiro do- mínio do sitio, e Ermida, e poderem começar a pôr mãos na obra. Mas acharão que estava de posse d^ella hum Clérigo, e que quando a qui- zcsse largar, era ainda necessária licença do Bispo de Évora, sem cujo beneplácito se não podia usar da Ermida, nem edificar: porque a cida- de, e tudo o mais que hoje hc Bispado de Elvas, era então da diocesi de Évora. íluma, e outra cousa se negoceou sem dilação. Renunciou o sacerdote sua posse, e direito nos Frades: e o Bispo scndo-lhe pedida sua licença, e benção em nome dos moradores, e de todo o povo, vendo o gosto que mostravuo da obra, passou logo suas letras cheias de graças, o favores, cujo Ireslado que irá com sua tradução he o que se segue.
PARTICULAU DO REINO DR PORTUGAL 29
Advirlindo primeiro, que nâo parecendo n'esta licença mais que a pri- meira letra de seu nome, que he D. (segundo o costume de escrever antigo) alcançamos por rezâo do tempo em que se passou chamar-se dom Durão Paes.
Universis Christi fidelibus prcesentes Vileras inspecturis D. permissione divina Elhorcnsis Episcopus saliUem in Domino sompiternam. Qtáa Domi- nus Alfonsus illuslns Itex PorliKjalliai conccssit jus patronaíus, quod ha- hehat in eremitagio S. Maria*, ad Martyres de Elbis Elhorensis dmcesis cum omnibus pertinentijs suis Fralribus Pra^dicaloribus pro remédio ani- ma! suw, ut ibidem fundent et wdijicent Monastcrvim sui Ordtnis, Et quia prwdicii fratres sunt nobis valdè uíílcs et necessarij, ut nobiscum in agro Domini coUaborent, eis damns licentiam, quód tn dido cremilagio et suis pertinentijs ac In lods alijs circum adjacentibus licite acquisitis, pro ut eis necesse fucrit fundent et a^dijiccnt monastcrinm sui Ordinis, in quo Do- mino studeant famvlari. Et omnibus illis, qui eisdem Fratribus ad tam pium et laudabile opus mannm porrexerint adjntricem de misericórdia Dei confisi, et uutoritate Beatorum Apostolorum Petri et Paali, et ea potestate, quam Dominus nobis indidsit^ quadraginta dies de injuncfa sibi legitime pwnitencia relaxa mus : nihilominus concedentes ut valeant indulgentiw per Episcopatum noslrum, quas alij Episcopi hujus rei conte mplatione nostris subditis duxerint concedendas, In cujuíí rei testimoniwn has patentes lite- ras sigillo nostro fecimus consignari. Datum apud Sanctarenam VII. Cal, Augusti Mra M.CCC.V.
Tradução.
Durando, por mercê de Deos Bispo de Évora, a todos os fieis Cliris- lãos que estas letras virem, saúde eterna no Senhor. Por quanto o iilus- tre Senhor Rei dom Allonso largou o direito do padroado que tinha na Ermida de N. Senhora dos Martyres doeste nosso Bispado em Elvas, dando-a com todas suas pertenças aos Frades Pregadores por bem de sua alma, pêra n'ella fundarem hum Mosteiro de sua Ordem. E porque os ditos Frades nos são mui proveitosos, e temos d'elles necessidade pêra nos ajudarem a trabalhar na herdade do Senhor, havemos por bem dar-lhes hcença pêra que na dita Ermida fundem, e levantem Mosteiro da sua Ordem, em que possão servir ao Senhor: e pêra o tal effeito se aproveitem das terras a ella pertencentes, e das mais que com bom di-
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reito houverem aquirido, na fúrma que mais lhes cumprir. E por lanto confiando nós na misericórdia de Deos, e pola autoridade dos Apóstolos S. Pedro, e S. Paulo a nós cometida, e polo poder que Deos nos deu, concedemos a todos aquelles que pêra tão pia, e louvável obra derem ajuda, indulgência de quarenta dias das penitencias que legitimamente lhe forem impostas : declarando juntamente que queremos, e havemos por bem que valhao, e tenluio vigor todas as indulgências que outri^s Bispos por este respeito concederem aos súbditos, e moradores d'este nosso Bispado. Em fé do qual mandamos estas letras passar, e sellar de nosso sello. Em Santarém aos vinte e seis de Julho da Era mil trezen- tos e cinco (responde aos aiinos de Christo 12G7.)
Como não havia outra cousa que tolhesse dar-se principio ao Con- vento, e toda a cidade eslava alvoroçada pêra ajudar a agazalhar os hos- pedes, começou a fabrica com muito fervor no mesmo anuo.
CAPITULO X
Da traça que se deu pêra a Igreja do Convenfo : e das esmolas que se procurarão pêra a fabrica: e de algumas mercês que polo tempo em diante houve rão os Religiosos dos lieis.
Fqí ít traça da Igreja a mesma que el-Rei dom Affonso tinha dada na de Lisl>oa, e não só no talho, mas também na grandeza, e capaci- dade: com que na verdade ficou descompassada pêra hum povo tanto inferior em numero de gente. Como el-Rei tinha grande animo, quiz- nos deixar sinais d'elle em hum, e outro edifício: e assi como fez o de Lisboa todo á sua custa, não devia faltar a este com grossas esmolas, visto como em seu ultimo testamento que hoje temos vivo, e original- mente está no Cartório Real da torre do tombo, se dá por fundador do Convento. Com tudo por algumas memorias antigas nos constou quo os Frades se valerão do Papa, e dos Bispos de Portugal, e Castella, co- mo a machina era tão grande, pêra acharem soccorro nos povos, por meio de indulgências que concederão os que o dessem. E por escusar- mos leitura, daremos somente huma certidão passada por hum. Escrivão da Cidade, que he bem de ver pola hngoagem, e termo d^aquelle tem- po: e diz assi.
PARTICULAR DO REINO DE PORTUGAL 31
Conhoçuda cousa seja a todos aquelles que esta caria virem^ que nós Alcaide, e Juizes, et Conceto de Elvas^ vimos letras de nosso Senhor o Apostoligo de Roma, que tem os Frades Pregadores, em que dá cem dian de perdon de seus peccados a todos aquelles, que a esse seu logar de Elvas fizerem esmolna. E vimos ainda letras de doze Bispos, que cada hum d'elles dá quarenta dias de perdon de seus peccados nos que a esse logar d'esse^ mesmos Frades fizerem, esmolna. E vimos ainda carta aberta com sello pen- dente do muy nobre Infante don Fernando de Castella et de Leon, porque manda a todas de sa terra que non filhem dizimo, nem portagem^ nem ou- tro direito nem hum a esses Frades Pregadores de Elvas, ou a seus hor mens: et não facão en ai por nem huma maneira, se nom a elles se torna- ria. Porém de iodalas cousas que elles comprarem, ou fizerem comprar na sa terra, et de seu Padre assi pêra seu vestir., como pêra seu calçar, como peva seu comer., como pêra suas obras: e outro si manda de todalas cou- sas que les por esmolna derem. Em testimonyo da qual cousa nos a esta carta posemos nosso sello pendente. E rogamos Martim Pires nosso publi- co tabaliam de Elvas que ponha hg sen sinal. E eu Martim Pires publico tabaliom de Elvas vi essas sobreditas letras e lg. E a rogo do Alcaide, e dos Juizes, et do Concelo, e d^esses mesmos I^rades Pregadores de Elvas^ este meu sinal com inha mão hg puz que tal he.
Bem se deixa entender por esta certidão, e pola grande copia do dinheiro que era necessário juntar-se pêra taraanho edifício, a reputação, c credito em que estavão os Frades com todo estado de gente, c por toda Espanha. Mas constando isto por tão certos indícios, inda devemos estimar mais outros da moderação, e pouca cobiça com que se havião no que tocava a suas pessoas. Do que apontaremos n'esta casa dous exemplos, que por serem do mesmo tempo, e pertencerem á Historia nos caem a propósito. E seja o primeiro, que tendo os Rehgiosos ne- cessidade pêra ficarem com a largueza conveniente de mais hum peda- ço de terra, e partindo com as do Convento huma boa courella que era da Coroa, e fora cousa fácil havel-a d'el Rei, mandarão ver, que canti- dade lhes bastaria precisamente pêra o que havião mister; e achando que com seis alqueires de semeadura ílcavão remedeando a falta, isso somente pedirão, como he de ver do alvará d'el-Rei, que por isso o lançaremos aqui, como jaz no original, mas sem tradução, por encur- tarmos escritura, e porque já fica declarada a susíancia, e diz assi.
32 LIVUO IV DA IIISTOIvlA DE S. DOMINGOS
Noveriut imiversi pr<esentem chartain viapeduri, (/uód ego Álfomm Dei gratia Rex Portur/idlice una cum uxore mea Refjina Domna Beatriz illusíris Uegis CusteUm et Legionis filife, et /ilijfi, et filiabus noslris dj et concedo Fratribus Prtedicatoribus de Elbis, unam peliani de mea hcere- ditate regalenga, quam habeo propè domum ipsonun Fratrum. Et ipsam petiam^ quam sibl do, debet esse tanta qiiôd levet in seminatura sex alquei- res de tritico : qiice hoereditas lacet inter viam qme vadit ad fontem de Pias, et ipsos Fratres. In cujus rei testimoniam dedi eisdem Fratribus istam meam chartnm. Datum Sanctarence prima die 3íaij. Rege mandante per Alfonsum Suerij super jiidicem. loannes Vincentij notavit jEra M.CCC.VI, (responde ao anno de Christo 1268). Elie de notar, que chama peça de terra, com nome Portuguez latinizada, o que os lavradores dizem cou- rella de terra.
Mas ainda andarão mais curtos os successores d'estes Padres com el-Rei dom Dinis. Porque nomeando-se el-Rei dom AíTonso seu par por fundador do Convento quando testou, como fica dito, e não lhe deixou nenhum género de renda nem mantença por titulo algum, nunca pedi- rão ao filiio mais que huma licença pêra fazerem lenha pêra a casa nos matos do Concelho : e d'isso temos huma provisão de sua mão assina- da, e dá por rezão da mercê que lhes faz, com palavras formais : por- que som homens bons, e servem a Deos.
Com tudo crecendo com os annos o valor das cousas, e mingoando a caridade em commum, foi necessário representar algumas vezes aos Príncipes as necessidades, e apertos do Convento. Erão muitos dos que forão succedendo no Reino muito liberais, e grandiosos de animo. Sa- bemos que com os mais teverão entrada, e bom lugar os Religiosos d'esta Ordem: e sendo assi foi tão pouco o que alcançarão os morado- res de hum Convento Real, que se deixa bem ver nas mercês, que mais devião ser aceitadas com vergonha, que negoceadas com cobiça. A pri- meira que houverão foi d'el-Rei dom Pedro bisneto do fundador. Parece cousa de graça o que montava. Erão dez soldos por dia (valia hum sol- do o mesmo que hoje vai huma moeda de três reis de cobre a seis sei- lis por real) e vinhão a fazer dez mil e noventa e oito rers da moeda presente no cabo do anno. Porque na reducção, e declaração que el-Hei dom Affonso quinto despois fez da moeda do Reino miúda assentou, que o soldo, e real branco que era o mesmo, valesse por dezoito pretos.
PAUTICIXAU DO UELNO DE POUTUGAL X)
011 dinheiros, que crão outros tantos seitis. El-Rei dom Fernando seu íilho, que despendeo grandes thezouros com estrangeiros em empresas não só desngcessarias, mas muito danosas ao Reino, nenhuma merco lhes fez de sua fazenda: deu-lhes das alheas os residuos dos testamen- tos da cidade, e do seu termo: cousa então, e agora de pouca conside- ração. Gonfirmou-Ih^os el-Rei dom João primeiro seu irmão, que lhe suc- cedeo. Passados muitos annos estreitou-se tudo mais pêra os Religiosos, e as rendas Reaes forão em crecimento : teve el-Rei dom AíTonso quinto, neto d el-Rei dom João primeiro, lembrança do seu Mosteiro real do Elvas, fez-lhe merco em tempo que já os Religiosos podião possuir bens de raiz em commum, do quatrocentos reis brancos em cada hum anno, pagos no Almoxerifado de Estremoz. Montão-se n'eUes pola conta quo lizemos acima, mil e duzentos reis da moeda que presente corre: por- que tinha então cada real branco três róis dos que hoje são de seis sei- tis. De todas estas mercês estão os títulos vivos no Cartório do Con- vento: e a certeza d'ellas nos obrigou a este discurso pêra louvor de nossos antepassados, que podendo deixar-nos grandes riquezas com pou- co feitio seu, quizerão antes deixar-nos exemplo de espíritos desinteres- sados.
CAPITULO XI
Das fazendas, e bens de raiz qne algumas pessoas deootas doarão ao Con- vento. Dd'Se conta da vida, e partes de alguns filhos d'elle.
Porém, onde faltou a industria humana suprio o favor Divino. As rendas que dos Reis poderosos, e amigos puderão, e não quizerão os Religiosos grangear, lhes trouxe Deos a casa, sem descomporem os pas- sos de sua obrigação, por meio da gente caritativa, e devota da cidade, que conhecendo, e vendo do perto as faltas, e fomes que muitas vezes padecião: e o trabalho que custava mendigar polas portas, como então costumávamos, acudio com liberalidade a provel-os de bens de raiz, com que a casa sustenta hoje trinta e cinco Frades, senão com grande lar- gueza, ao monos com o que moderadamente basta. Devemos memoria, e agradecimento, em primeiro lugar a duas irmans, que nâo quizerão guardar pêra despois da morte o que podião fazer em vida. Entendião não ser nobre género de charidado dar a Deos o que se deixava, e fica- va no mundo, e não- podia acompanhar a seu dono morrendo (como
VOL, u o
34 LIVRO IV DA IlISTOniA DE S. DOMINGOS
J3cm vio, c advirtio a sua mâi, a virgem, c martyr Santa Luzia (1), c por isso creio que ficou em devaçâo encomendarmos-lhe os olhos), deter- minarâo-se largar em saúde, e boa idade toda sua fazenda, que era muita, e boa, e entregal-a logo ao Convento, sem reservar pêra si mais que hu- ma curta porção em bum estreito recolhimento que buscarão, e no ha- bito da terceira Ordem de S. Domingos que vestirão : e nelle viverão, e acabarão santamente. Chamavão-se Anna Rodrigues, e Maria Lopes.
Seguirão seu exemplo outras duas irmans, Margaida Annes, que do sobrenome se chamava a dona, e Orraca Rodrigues: gente honrada, e muito rica, as quais juntando a si na determinação duas primas suas, Lianor Vaz, e Caterina Estevens de Cellas, de mão commum se desapos- sarão animosamente por amor de Deos de quanto tinlião na vida, e do- tarão ao Convento herdades que rendem hoje quarenta moios de pão, sem porem carga nem obrigação aos Frades, mais que ficarem recebidas ás orações, sacrifícios, é suffragios da Ordem. Mas quanto menos pre- tenderão ellas, tanto se esmerou mais o agradecimento nos Religiosos. Porque pêra ser perpetuo lhe edificarão logo huma boa capella, que he a primeira do cruzeiro, quando sahimos da Sacristia pêra a Igreja, á mão esquerda, e a dotarão de Missa quotidiana. E porque a Margaida Annes foi principal autora, e como capitoa d 'esta santa obra, além de particu- lares esmolas que tinha feito de boas peças de prata pêra a Sacristia, e de mil dobras em dinheiro pêra reparo da Igreja cm tempo que estava mui perigosa, foi conselho conservar seu nome na capella, dedicando-a com hum fermoso retabolo, c imagem da gloriosa Virgem, e Martyr Santa Margaida.
Com particular applicação pêra a fabrica da Igreja, e ornamentos da Sacristia, deixarão também huma boa herdade, Lourenço Estevens, e Maria Lopes, sua molher, e também souberão aproveitar-se da boa cali- dade da esmola, que foi desherdar-se vivendo.
Cerraremos este capitulo, e o que ha que dizer do Convento, com vermos se achamos alguns filhos d'elle que nos dem matéria de escritu- ra. Dos antigos, e primeiros Padres não temos nada que dizer, com tra- balharem, e merecerem muito, sendo os primeiros promotores do ediíi- cio, e os que n'elle se desvelarão, e cançarão : que bem se deixa enten- der, que se não forão homens de mui acreditada virtude, era impossível terem o povo tão prompto, e propicio pêra os chamar, e buscar, e trazer
[\] No Breviar. Roman.
PAKTICLLAli DO UEINO DE PORTUGAL 35
como á força pcra a cidade, c despois chegarem o Convento á perfeição em que o entregarão aos successores. He desgraça nossa que aquelía idade de ouro, como trabalhava sò pêra Deos, tivesse por honra consa- grar-lhe até as memorias que nos puderao deixar de suas obras, e no- mes. Assi he força íicarem-nos em silencio muitos varões dignos do eterno louvor, que não ha duvida honrarão com suas virtudeSj e exem- plos este Convento : silencio por elles procurado, e de nós justamente sintido, que de boa vontade empregáramos a penna em os servir. Di- remos de alguns mais chegados a nossos tempos.
Pessoa foi de importância, e merecedor de lembrança o Padre Frei Umberto Cordeiro, Doutor em santa Theologia : mas não nos deixou o tempo d'elle, mais que o que foi fruito de seu trabalho, e estudo. Es- creveo hum volume muito douto, em que juntou com a erudição, e de- licadeza de engenho, particular devação. He o titulo «do Amor de Deos, e do próximo. »
O Padre Frei Manoel de Olivença tinha vivido largos annos nos claus- tros d'esta casa, e nos braços d'esta mãi que o gerara, quando sobre o mal de huma perna, cm que o peso dos annos lhe tinha juntado grande carga de humor, e lha trazia feiamente inchada, cahio em huma forte doença de febres. Costumava o bom velho não faltar nunca ao Coro, es- pecialmente a Matinas. Habito alcançado com virtude, e feito com o cos- tume tão saboroso, que o maior mal que na doença sintia (e sintia mui- tos), era faltar em tal hora da companhia de seus irmãos. He a hora por muitas rezôes mais apropriada pêra buscar, e louvar a Deos, e mais própria da religião, e religiosos pêra velar, e orar, que todas as do dia: velando, e orando polo povo como bons pastores, quando elle ou des- cança na quietação do sono, ou jaz sepultado na modorra do vicio. Era véspera de huma festa de Nossa Senhora, cerrou-se a noite, lembrou-se do gosto com que se recolliia n'outro tempo, pêra se achar primeiro, e mais esperto no Coro, e em suas Matinas : começou a desfazer-se cm lagrimas, vendo-se impossibilitado por tantas vias; tomou mal o sono, e tarde, e estava d^elle bem necessitado. Eis que toca o relógio meia noite ; segue o sino ; soão logo as taboas. Renova-se então a magoa no peito do velho, porque sintio levantarem-se os vizinhos. E não podendo acabar com seu espirito ficar na cama, arremete com fervor, e quasi fu- rioso ao habito, salta fora do leito, caminha pêra o Coro. Não se espan- tava de si, nem se conhecia, porque o vigor do espirito lhe tinha tirado
30 LIVRO IV DA IIISTOIUA DE S. DOMINGOS
a imaginativa ; como acontece ao frenético, a quem dá força na maior fraqueza o humor venenoso da doença. Visto no Goro, espantou a todos. Pareceo que era falta de juizo ; acodem a elle, pedem-llie que se reco- lha. Quando o bom vellio os ouvio, então acabou de conhecer o estado em que estava, de s!ío, o livre nlío só da febre ardente, que de muitos dias o tinha já meio sepultado na cama ; mas também da inchação da perna. Assi o aílirmou então de palavra aos Padres, assi o confirmou com obras no dia seguinte, ficando no refeitório, emais lugares da Gom- munidade entre os sãos, logrando o bem da milagrosa saúde. Qual seria a vida de quem assi se levantava da doença, bem se deixa compreender sem lhe buscarmos encarecimentos. E se huma boa, e santa vida asse- gura o fim d'ella, grande eaveja nos deve fazer este Padre com seu pro- ceder, e com sua velhice; com sua morte, e até com suas doenças.
Por illustre em santidade, foi enterrado na Gapella m jr Frei João Bragado, irmão leigo. Que mais se pudera fazer ao mesmo Rei funda- dor, e padroeiro da casa, se quizera entre nós enterrar-se ? Mereceo si- tio Real na morte, quem vivendo nâo quiz nunca senão o mais Ínfimo, e abatido lugar do seu Convento. E porque nestes dous pontos de hum estremo de humildade de sua parte : e de outro estremo de respeito, e veneração de parte dos que o enterrarão, ficão cifradas todas as gran- dezas que pudéramos dizer d'elle: poremos só aqui em memoria, pêra que se não perca nunca a que lhe devemos, o lugar de sua» sepultura, que he debaixo d'onde antigamente estavão os órgãos.
CAPITULO XII
Fundação do Concento de S. Domingos da villa de Guimarães,
A muito nobre e antiga villa de Guimarães, berço dos primeiros Reis de Portugal, tronco, e fonte de grande parte da nobreza doeste Reino : não ha duvida que foi hum dos primeiros lugares d'elle, que abraçou as duas Ordens dos dous grandes Santos, grandes amigos, e companheiros S. Francisco, c S. Domingos. Era morada de gente illustre, com quem sempre tem lugar a virtude, ou por brandura, e devação, ou por corte- zia, e ponto de honra : condições todas que naturalmente acompanhão o bom sangue : não podia em tal terra faltar gasalhado aos professores de vida santa. E assi como lho derão os moradores d'ella com bcnignida-
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de, e gosto, assi ordenou aquelle Senhor, que nenhum serviço feilo a seus servos, por pequeno que seja, deixa sem galardão, que de huma, e outra Ordem visse Guimarães dentro de suas casas varões santos, o gozasse sua presença, e doutrina (mimo, e favor grande do Geo pêra os lugares que o alcançâo, se o sabem conhecer, e estimar.) Mas, ou fossem causa as dcscomposiçôes, e discórdias que então havia no Reino entre os estados ecclesiastico, e secular, e outras que íorão logo seguin- do, que largamente escrevemos atrás : ou a pouca possibilidade dos par- ticulares pêra emprender obras de grandeza extraordinária : sobejando o gosto pêra estimar os hospedes de ambas as Religiões, e sendo rece- bidos com muito amor, e largueza, quanto á sustentação de suas pes- soas, e aceitação de sua doutrina, só o gasalhado de casas, e aposento, foi estreito, e pobre. Derão aos Franciscanos hum pequeno Oratório apartado da villa, onde pouco, e pouco forão engenhando seu recolhi- mento em forma de Mosteiro (1), que polo tempo em diante com duas mu- danças vierão a ter em perfeição, no sitio onde hoje está. Por maior mi- mo recolherão aos nossos dentro da villa, e no seu Hospital, que he casa magnifica em ediíicio, e tratamento de enfermos. Não se espantarão os filhos de S. Domingos do gasalhado, e companhia de pobres, antes a abraçarão com gosto, assi pola o€casião que tinhão de exercitar dobrada charidade com os enfermos quando vagavão horas da doutrina publica, como porque era regra que trazião de seus maiores, pêra não serem pe- sados a ninguém em particular, buscarem os hospitaes, assentarem n"el- les orando, vigiando, e celebrando como em casa própria, pois era dos desemparados do mundo : d'elles sahirem a pregar, em quanto faltava, ou se hia negoceando commodidade de Convento. Assi o achamos escriío por Frei Estevão Sanhalac, na sua Gronica da Ordem, acrecentada poki Inquisidor Mestre Frei liernardo de Guido, e nas lembranças do Santo Frei Jordão, Mestre Geral da Ordem : e em testimunho afQrmão, que os primeiros Frades que o Padre S. Domingos enviou de Tolosa a Paris, passarão muito tempo em hum hospital, que foi hum anno inteiro des- d'o mez de Setembro de 1217 até Agosto do seguinte, em que tomarão posse da Igreja de Santiago, d'onde lhes ficou o nomo de Jacobinos. E o Mestre Frei Francisco Diago na sua Crónica da Província, e Frades de Aragão (2) escreve que na cidade de Barcelona andarão os nossos Frades
(i) Fr. Marcos na Chron. de S. Francisco p. i. lib. G. cap. 30. (2) Fr. Francisco
Diago liv. t cup. 1. fui. lOí.
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desagasalhados, aló alcançarem a Igreja de Santa Calerina, em qne edi- ficarão Convento : e todavia assi mal tratados, e por casas emprestadas guardavâo forma, e governo de conventuaes, e tinhâo coro em que se junta vao a rezar, e orar, e sua separação pêra os noviços que recebiâo, e em huma d'estas derão o habito ao grande S. Raymundo. E o mesmo aconteceo a outros Frades nossos na cidade de Yicencia em Itália, como aponta o Mestre Frei Fernando de Castilho (1). E por nâo pendermos de oxemplos estranhos onde os lemos caseiros, muitos annos pregarão em Lisboa, e alguns em Coimbra, primeiro que tevessem Convento forma- do, como a rezão está mostrando, e polo que atrás fica escrito parece claro : visto como nenhuma Religião entrou nunca tão favorecida em ci- dade alguma, que no primeiro dia achasse Convento feito. Supposta esta verdade, não fica de espantar que sendo o hospital de Guimarães casa abundante de provimento, e de aposento sobejo, fizessem d'ell<í morada, como fizerão, por mais de quarenta annos. E não lhes faltou mais pêra ser mosteiro de Dominicos que a propriedade. Porque a religião andava tanto em seu ponto que em se juntando Frades, logo as ceremonias, c observância da regra se mantinha rigorosamente, Aqui residia o Santo Frei Pêro Gonçalves Telmo, quando pregou por entre Douro, e Minho. Aqui recebeo ao habito a S. Gonçalo de Amarante, e a S. Frei Lourenço Mendes, como também recebeo por outras partes outros sogeitos, se- gundo adiante se verá, Porque n'aquelles tempos nem havia termo pre- ciso de noviciado, e provação, nem lugares determinados pêra isso. Os que anda vão pregando polo Reino como então se costumava (e chama- vão a isto apostolar) levavão licença pcra lançar o habito aos que achas- sem dignos. Porque convinha assi pêra povoar os Conventos n"aquelles princípios, e permittia-o a pureza, e perfeição dos sogeitos, Os recatos que hoje se uzão (e são mui justos, e necessários), fez inventar a ma- licia que despois foi crecendo. A este modo andarão pregando por todas as terras de além Douro, S. Gonçalo apoz S. Pedro Gonçalves, eS. Frei Lourenço Mendes apoz S. Gonçalo. E d'este hospital sahião, e a elle tor- navão: e quando se achavão juntos rezavão, e oravão juntamente horas nocturnas, e diurnas, com observância, e puntualidade de Santos. Pro- va-se esta habitação continua (alem da constante, e publica tradição que pm falta do escrituras tem bastante ci'odito), porque se pegou ao hospi- tal o nome da Ordem de maneira que o titulo porque hoje se conhece,
(1) Cíislilbo 1. part. liv. 2, cap. GD.
PARTICULAR DO REINO DE PORTUGAL 39
e nomea he de Hospital de S. Domingos : e como em casa própria está sot)re a porta, e entrada d'elle hmna imagem do Santo pintada a fresco, de tempo immemorial, c de feitio, e mão, que dá testemmiho claro de altissima antiguidade. E no retabolo da Igreja se vem a óleo outras duas, huma do Santo, e outra de S. Pedro Martyr. E sobre o arco, a que este altar se encosta, parecem pintados seis Frades Dominicos, que em To- losa de França forâo poios hereges martyrizados. De sorte, que só em casa totalmente da Ordem, se podem achar tantos sinais juntos d'ella. Mas muito mais se confirma isto com hum costume, a que se nâo sabe rezao nem principio, de ir como vai todos os Sabbados do anno hum Frade do nosso Convento dizer Missa ao mesmo hospital. E de todas estas cousas devia nacer huma opinião que anda na Província, que a pre- cedência que o Convento de Lisboa tem de quarto lugar nos Capitulos Provinciaes lhe foi dada por Guimarães : fundando-se os que tratâo d'esta matéria em terem por certo, e averiguado, que em tempos atrás lhe correra sempre a antiguidade, não do dia da fundação, do Convento, se nâo do tempo que no hospital começarão a residir, e pregar, e continuar Frades da Ordem : como se achou ao certo que succedera consecutiva- mente desd'o tempo que S. Pêro Gonçalves n'elle entrou, até que o Convento foi edificado : succedendo S. Gonçalo a S. Pedro Gonçalves, c S. Frei Lourenço Mendes a S. Gonçalo : e he de saber que S. Frei Lou- renço alcançou os tempos da fundação do Convento, e n'elle está sepul- tado. Confirma- se esta rezão com o exemplo vivo que hoje temos de preceder o Prior de Guimarães, como precede, nos actos públicos da Província ao de Elvas, sendo assi que se a tal precedência estribara nos annos precisos do edifício de cada Convento, manifestamente era primei- ro Elvas, pois tem ancíanidade em fabrica quasi quatro annos mais. E pois esta lhe não valeo, sondo a causa ventilada no Capítulo Provincial celebrado no mesmo Convento de Guimarães no anno de 1532, sendo Provincial o Mestre Frei Jorge Vogado, nem n'outro muito despois no anno de 158o, em que foi Provincial o Mestre Frei ílieronymo Corrêa, no qual se tornou a altercar a questão : claro fica que referião aquelles Padres a antiguidade de Guimarães aos princípios que temos dito da pregação de S. Pedro Gonçalves, e de S. Gonçalo. E com estes não ha duvida que vencia Guimarães também ao Convento de Lisboa em alguns annos, sem embargo de ser começado a edificar ao justo dezenove annos despois. E por esta conta possuía justameníc o quarto íngar na Provia-
40 LIVRO IV DA IIISTOUIÂ DE S. DOMINGOS
ria, o qual pode ceder, e cedeo a Lisboa, como a Convento que por í^randeza, e sitio hc cabeça de todos os mais do Reino. Mas não pareceo justo que cedesse também a Elvas : o por isso, dando a Lisboa o seu quarto lugar, se ficou no quinto, e Elvas tem o sexto.
CAPITULO Xlíl
Chama o governo de Guimarães aos Frades de S. Domingos pêra mora- rem na villa. Dd-se-lhe sitio : edificào Convénio : aponlão-se os nomes das pessoas que lhe acudirão com esmolas.
Dezenove annos havia que o Santo Frei Pêro Gonçalves gozava dos prémios eternos, segundo a conta do Mestre Frei Vicente Justiniano An- tíst, que diz faleceo no de 1251. E havia doze que o seguira ao Ceo o Santo Frei Gonçalo de Amarante, que acabou no de 1258, e o Santo Frei Lourenço andava em seu ministério Apostohco, pregando polas ter- ras onde sintia mais necessidade : quando a Camará, e governo de Gui- marães, desejando que os Frades de S. Domingos fossem moradores de assento, e não só hospedes em sua terra : ou por ventura temendo-se (jue nacesse da continuação da morada do seu Hospital, haverem-se por senhores d^elle : e tendo tratado o negocio com os Prelados maiores, em fim alcançarão no anno de 1270 que aceitasse a Ordem sitio, e casa for- mada na viila.
Entrava o mez de Dezembro d'este anno, quando aparecerão em Gui- marães o Prior de S. Domingos do Porto com outros três Religiosos (todos pessoas de importância), mandados pola Provincia pêra a funda- ção pedida. Mostrou o povo o gosto com que a pedira, o esperava, no gasalhado, e alvoroço com que os recebeo : e ellos o que a Ordem linha de agradar á villa, pois em tal tempo caminhavão. Ordenou-se que o Vnor pregasse aos doze do mez pêra que se ajuntasse o povo, e vissem os Religiosos nos olhos, e sembrantes de todos a vontade, e promptidão com que de todos erão desejados. Ajuntou- se a terra no dia aprazado, sem faltar homem, porque os do governo por fazerem o auto mais so- lene mandarão convocar os vizinhos com voz de pregoeiro. Pregou Frei Álvaro, que assi se chamava o Prior; e acabado o Sermão propoz a re- zão de sua vinda, ede seus companheiros, que era serem chamados por carta da Camará pêra edificarem Convento, e mandados a isso de seus
PAUTICrLAn DO REINO DE PORTUGAL 41
maiores. Mas que sobre tudo queria saber a vontade do povo, porque a primeira ordem que trazia era não começar nada sem seu beneplácito. Sendo entendida a proposta, nâo derão lugar a que fosse o Prior com a pratica adiante, mas levantou toda a Igreja huma voz de alegria, dando graças a Deos que os trazia, e ao Prelado que os mandava, e a elles que vinhão, e certificando que todos estavao prestes pêra ajudar a obra. Decido do púlpito achou o Prior nos que d'antes o não tinhão visto, a mesma boa sombra, e cortesia, dando-lhe animo, e promettendo que não faltaria nada na terra pêra terem muito brevemente bum fermoso Convento: porque nenlmma havia em todo entre Douro, e Minho mais obrigada aos Frades de S. Domingos pola memoria de dous tão grandes Santos, como S. Pêro Gonçalves, e S. Gonçalo, que n'ella havião vivido, tratado, e conversado como naturaes.
Tratou-se no mesmo dia em se buscar sitio : e apontando huns, e outros em diííerentes postos, atalhou as duvidas João Pires Arrudo, pessoa principal da vida, oíferecendo pêra principio do Convento humas boas casas suas. Sendo aceitadas, parecia que só hum inconveniente ti- nhão, o qual era estarem na parte mais povoada da vil ia ; porque era de crer que haveria contradição, ou diíTiculdade em se largarem as que mais fossem necessárias pêra a fabrica. Mas foi Deos servido de facilitar tudo de maneira, que antes alguns derão liberalmente o que por alli possuião. Outros, por não serem vencidos em cortezia, ou davão dinheiro pêra se comprarem as propriedades que erão necessárias pêra largueza do Con- vento ; ou offerecião outras pêra se trocarem com os que não quizesscm vender. Hum Cónego da Igreja Collegiada da villa, fidalgo honrado, a quem as memorias, que temos, chamão grande homem, e era seu nome Pêro Soares, possuia huma terra vizinha das casas de João Pires, e em lugar mui accommodado pêra o Convento se estender até junto da fonte que chamão da Cuba. Esta pertencia juntamente a Maria Soares, sua ir- mão, com huma moenda que havia n'ella. Como souberão ambos o que passava na villa, não foi necessário serem rogados : dcrão-na livremente aos Frades, e despois lhe fizerão outros grandes bens, e esmolas, como diremos adiante. Outro Cónego de Braga, pessoa também nobre, cha- mado Gonçalo Gonçalves Peixoto, deu humas herdades, e muito dinheiro de contado pêra ajuda da obra, sem mais encargo que pedir aos Frades o encomendassem a Deos entre seus bemfeitores. Este Cónego querendo ajudar também com alguma cousa perpetua o Convento, porque não po-
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dia receber próprios, quando fez testamento poz obrigação aos herdeiros de sua fazenda, que todos os annos lhe mandassem cantar poios Frades d'esta casa huma Missa solene de Uequiem, e que fosse (são palavras formaes da lembrança) por dia de lava-pés; e por ella se dessem de esmola cinco livras, que respondem na moeda presente oitocentos réis a IGO réis por hvra. Muitas outras pessoas acudirão com grossas esmo- las ; que na verdade reina na gente d'este lugar hum particular eíTeito, de charidade com as Religiões : e a de S. Domingos o tem experimen- tado por todas as idades.
Assi crecia a obra: e a vista d'ella espertava novo gosto nos mora- dores de a verem sobir, e adiantar ; pêra o que os que não tinhão dado nada abrirão de boa vontade as bolsas, e trazião o que cada hum podia sem serem importunados. E os que já se tinhão olTertado torna vão de novo com as mãos cheias, estimando ter maior parte na casa de Deos: que como era sua, e feita com benção, e applauso geral, não tardou muito em se acabar. Consta-nos que, sendo começada na entrada do anno de 1271 reinando el-Rei dom Afonso III, teve fim ainda em sua vida: e por esta conta não passou a fabrica de oito annos de trabalho, porque el-Rei faleceo no de setenta e nove.
Acabado o Convento não quizerão os Religiosos que se acabasse a memoria das pessoas, que mais particularmente se empregarão em fa- vorecer, e ajudar a obra, e davão-se por mais penhorados com os de- votos, porque sabião que no edifício de Elvas, além de intervirem bra- ço, e esmolas de Rei, acudio o Papa com graças espirituaes pêra obri- gar outros povos, e concorrerão muitos Bispos com as suas, os quaes he de crer abririão também os thesouros da terra, quando assi commu- nicavão os do Ceo. Poserão em lembrança os nomes de todos pêra fi- carem sempre vivos, e sabidos por meio da Religião, pêra honra geral da villa, e particular dos parentes, e successores. De mão de Frei João de Braga os achamos escritos, que sendo Prior do Convento no anno de 1410, replicou em hum breve tratado que colheo de memorias antigas o processo d'esta obra : no qual despois de nomear as pessoas que atrás apontamos, ajunta Gonçalo Gonçalves Cavalleiro da Rosa, è sua mulher, e Orraca Annes, e dona Orraca Manteigada : as quaes chama donas, e Monjas de Lorvão : e dona Maria, Monja do hospital de Chavo. E dizendo que muita outra gente principal ajudara a obra com particulares dadi- vas, dá cm prova huma clausula de huma e*scntura que diz andava cm
PARTICULAR DO REINO DE PORTUGAL 43
hum livro do tombo do Convento, autorizada com o sello d'ene, e pas- sada em nome do Prior, e Religiosos, cujas palavras formacs erâo.
Damos a dona Joana Diz Padroeira, e fundadora do lugar em que a Deos servinioSy a 3íissa do Sábado de Sanla Maria e a Missa sesta feira, e islo pêra sempre.
E diz mais, que o nome d'esta dona Joana andava escrito no livro da Calenda por obrigação que bavia de Ibe fazerem cada mez bum Anni- versario. E aponta de novo, que o Cónego Pêro Soares, de que atrás falamos, se enterrou no Convento, e deu buma grande copia de dinbeiro de esmola no dia em que faleceo.
CAPITULO XIV
Derriha-se o Convetito. Dá-se conta da rezão que pcra isso houve: edifica- se de novo em outro lugar: faz-se memoria de algumas pessoas de grande calidade que ajudarão a obra.
Mas este Convento começado com tanto gosto, proseguido com tanta abundância, e largueza, e acabado com tanta brevidade, que por todas as vias estava ao parecer prometendo perpetuidade, virão muitos dos que o ajudarão a levantar, posto por terra dentro de cinquenta annos: e forâo elles os mesmos que na ruina poserão também as mãos, e pas- sou o caso desta maneira. Começando a reinar el-Rei dom Dinis pare- ceo-lhe cousa conveniente fortificar esta villa com nova cerca de muros, ou alargando a antiga, porque tinba crecido muito em povo. E foi tal a traça, que veio a muralha pegar com o Convento, e deixando-o de fora, foi correndo ao longo da Igreja, e Capellas. Obra em matéria de forti- tificaçâo de todo ponto errada: porque ficou a Igreja com a visinliança, feita padrasto do mundo como despois mostrou o successo. Passados alguns annos nacerâo desgostos entre o mesmo Rei autor da fortificação, c o Príncipe dom Affonso seu íilbo, e*berdeiro (infante era a lingoagem com que n'aquelle tempo se nomeava o Príncipe). Apartou-se o Príncipe dos olhos de seu pai : a ausência agravou os desabrimentos, porque não falta vão atiçadores do fogo da discórdia (como lie costume pêra fins, e interesses particulares). Parou o negocio em campos formados, cercos de terras, o em fim guerra rota entre pai, e filho. No discurso d'ella velo o Principc com poder sobre esta villa. Defendeo-se-lhe cora a leal-
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ílade que devia a seu Rei, e senhor vivo. Mas então se manifestou o erro de quem traçou a cerca da villa, porque por cima da Igreja pretende- rão os soldados do Principe entral-a, apertando-a com duros combates, e pelejando de lugar igual, e quasi pé a pé com os de dentro, pola com- modidade que lhes dava a visinhança, e altura da Igreja, e capellas : e assi esteve arriscada a se perder. Passada a guerra, cujos successos nâo tocão a esta Historia, mandou el-Rei notificar aos Frades que den- tro de hum anno passasem o Convento a outra parte, com apercebimento que ficasse lâo longe do muro quanto parecesse a Mem Rodrigues seu Meirinho mór em Antredouro, e Minho. Assi vierão a pagar os Frades a imperícia dos engenheiros d'el-Rei, e as paredes do Mosteiro os de- feitos da muralha. Veio Mem Rodrigues, poz balizas, e sinalou a distan- cia que se haviao de afastar. E porque não íliUasse novo desgosto, que- rendo a Ordem começar sua obra foi embargada polo procurador do Concelho, e governo da villa, lembrados do perigo, e medo passado : e parecendo-lhe ainda demasiada a visinhança, se o Convento ficasse no lugar disenhado, que he o mesmo em que hoje está. Com este embara- ço se dilatou a nova fabrica até a morte d'el-Rei dom Dinis ; e entrando no governo seu filho dom Affonso quarto, mandou que se não innovasse nada no que Mem Rodrigues assentara, porque assi dava por resalvado todo o prejuizo que a villa mostrava temer. Com tal resolução come- çou a correr a obra, e era novo, e lastimoso género de trabalho, por- que hião desfazendo, e arruinando huns, e compondo, e alevantando outros. Comprarão os Religiosos novas propriedades pêra se alargarem contra o campo que chamão do Preposto: fizerão novas trocas com os vizinhos, e novos assentos com a Camará de caminhos, e ressios do Con- celho que por alli havia: nos quacs assentos mostrarão todavia os do governo o respeito, e amor que tinhão á Religião. Porque em final de- terminação . derão licença que os Frades metessem dentro da sua cerca a fonte da Cuba com os ressios vizinhos, sem embargo de algumas con- tradições de pessoas, que de huma, e outra cousa se querião lograr.
Ainda que esta tresladação do Convento foi de pouco gosto pêra to- dos; e não consta que el-Rei, que a mandou fazer, a ajudasse com seu poder, acudio Deos, como costuma ás obras de seu serviço: e fez que suprisse n'esta com sua liberalidade dom Lourenço, Arcebispo de Braga, tomando á sua conta grande parte delia. Porque de suas esmolas se fez o coro, e a sacristia, e a maior parle da Igreja. Foi este prelado em
PARTICCLAU DO REINO DE POUTUGAL 4.>
grande estremo aíTeiçoado á Ordem, e coatinuo bemfeitor d'ella, e até dos Frades particulares.
Á imitação do Arcebispo se dispoz também a nos ajudar hum Fidal- í^o de illustre, e antiga geração d'este Reino, chamado João AíTonso de Briteiros. Este fez todo o lanro da parede da Igreja, que fica pêra a rua: c a porta principal, e outras oíTicinas dentro. Pagou-lhe Deos a charida- de por hum modo muito seu, ordenando que fosse o premio d'ella, des- pois de ter dado, e gastado muito com a Religião, dar-se também a si mesmo (grande mercê, e grande misericórdia do Senhor, quando he ser- vido inclinar vontades, e encaminhar traças pêra tamanho bem : e tanto maior quanto he menos entendido no mundo), falecer-lhe sua molher no tempo que andava com as mãos na pedra, e cal. Costumava a cal cegar, e a elle espertou-lhe a vista : determinou-se em ter parte na obra por melhor via : pedio o habito, e recebeo o de irmão leigo : e n'aquella hu- mildade viveo, e acabou santamente. Repartio sua fazenda que era mui- ta, antes de professar dando parte á Igreja de Nossa Senhora da Olivei- ra, com obrigação de certos Anniversarios, e outros suffragios perpétuos por sua alma, e de sua molher : e todo o restante deu ao Convento, que foi além de ricos moveis, e peças de casa grande, quatro casaes, e o lu- gar que chamão de Casa nova: o que tudo venderão, ou trocarão os Fra- des pêra o empregarem em acabar o Convento. E ficara ainda sem per- feição, se lhes não valera huma fermosa herança, que alguns annos des- pois teverão de hum Bispo de Burgos, o qual renunciando a Mitra por fugir das inquietações, e escrúpulos, em que toda Espanha andava en- volta com scisma que estava levantada na Igreja Romana, por morte do Papa Gregório onzeno ; entre Urbano sexto, verdadeiro successor de S. Pedro, e Clemente Antipapa que em Avinhão de França se fazia chamar Clemente sétimo: escolheo pêra sua vivenda, e socego a cidade de Bra- ga, onde faleceo, e deixou esta casa por sua universal herdeira. O que principalmente mandou que se fizesse, foi huma livraria, pêra a qual deixou desde logo muitos, e bons livros. Empregarão-se os Frades em trazer de fora a fonte que corre na crasta, e no lavatório da sacristia, que foi obra de muita despesa. Fizeram também livros pêra o coro, e ou- tras peças de que havia mais necessidade.
E porque a memoria da pregação de S. Pêro Gonçalves, e S. Gon- çalo, além da honra, e gloria que rcndeo á Religião de S. Domingos, e a este Reino, foi sempre mui venerada do povo de Guimarães, dando-se
46 LIVRO IV DA HISTOniA DE S. DOMINGOS
por obrigado a celebrar com animo agradecido o beneficio espiritual quo de ambos recebeo, institiiio logo duas Confrarias cm bonra sua na nos- sa Igreja ; Imma, c outra com particular altar. Da de S. Pêro Gonçalves sâo administradores os oíTiciaes da Gamara, e elegem em cada bum anno os Mordomos que bâo de servir.
E pêra mais veneração impetrarão de Roma correndo os annos mni- tas indulgências, que se ganbão poios que visitão a sua capella das pri- meiras vésperas até ás segundas. Procurou, e alcançou estas graças bum Fidalgo bonrado, e natural da villa, que não bc rezão ficar em silencio, por nome Pedr'al vares. Mostra-se a grande antiguidade da confraria em bum particular favor com que se autorisou o altar, que foi ser consa- grado (cousa que ba muitos annos se não costuma) do que persevera a lembrança em sabermos polo Breve Romano que as principaes indulgên- cias são concedidas ao dia em que foi sagrado, sem embargo que tam- bém se ganbão em certas festas do anno. O sitio doeste altar, e capella be o topo do cruzeiro da banda da Epistola.
Ficou no outro topo defronte dedicada a capella, e o altar ao bem aventurado S. Gonçalo com sua imagem de vulto, e sua confraria, e em íim como de Santo em todo pertencente ao tronco, e origem d'este Con- vento, e como Portuguez ficou em melhor lugar qual be o da parte áo Evangelho. Mas andando o tempo parecco que era devido este sitio á Virgem gloriosa do Rosário; e o S.mto lhe deu seu lugar, sendo mudado pêra o mesmo que a Senbora tinha, e ficando por duas vias bonrado, buraa em lhe dar o seu altar, outra em ficar no da Senhora.
CAPITULO XV
Vida, e milagres do Santo Frei Lourenço Mendes; com a notável obra que acabou da ponte de Cavez.
Pertencem a este Convento como filhos da Religião por meio do ga- salbado que ella acbou n'esta villa desde seus princípios ; e por recebe- rem o santo habito no hospital d'ella, babito de pobres em casa de po- bres, os dons grandes Santos S, Gonçalo de Amarante, e S. Frei Lou- renço Mendes. De S. Gonçalo diremos quando chegarmos aos annos cm que Ibe foi edificado Convento, aonde parece que mais justamente per- tence, por este titulo, c polo mais principal de ter ali suas santas reli-
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qiiias. De S. Frei Lourenço he aqui lugar próprio polas rezões ditas, c porque n'este Convento morou ainda alguns annos, n'elle faleceo, e n'elle espera a resurreicâo o despojo mortal de seu corpo. Foi Frei Lourenço de geração nobre, o apellido de Chacim apagado hoje, mas no tempo antigo bem conhecido, e aparentado com todo o bom do Reino: como parece do livro de linhagens, que nos deixou escrito o Conde dom Pedro. Tinha passado os annos da mocidade nas vaidades d'ella, entre gostos da terra, e esperanças de valer, que enlevao os ânimos nobres fazendo- Ihe d'isso obrigação, e como lierança de seus maiores. Entrava em idade perfeita, tocou-o Deos ouvindo as pregações do Santo Frei Pêro Gon- çalves : e olTereceo-lhe outras esperanças, e outros meios de valer, ou- tra Corte em que merecer, outro Rei a quem servir : descobrio-lhe as al- químias do mundo, representou-lhe a fineza do ouro do Ceo, e por ga- lardões duvidosos, e fracos, prémios certos, e immorlaes. Tinha o en- tendimento livre, e naturalmente claro, e assentado : era o chamamento Divino, rendeo-se de todo coração, ficando-lhe só hum pesar de cair na conta tão tarde. Foi-se ao Santo, que polo que tinha experimentado tam- bém no mundo, era bom mestre de enganados: e suas pregações como verdadeiramente Apostólicas, não oíTerecião aos ouvintes outros pontos nem outras sutilezas, senão desenganos. Brevemente ficou resoluto no que lhe convinha, e com a mesma brevidade deixou tudo : e tomando da mão do Santo o habito de S. Domingos, ficou-se algum tempo em sua companhia.
Isto he tradição mui antiga, recebida na Ordem, e na villa, e confir- mada com a pintura, que não ha muitos annos durava no primeiro re- tabolo do altar do Santo: o qual por ser velho, e por curiosidade dos Confrades se tirou, pêra dar lugar ao novo que hoje vemos. Era de ver n'elle hum Frade todo prostrado, e estendido por terra aos pés do Santo; e afiirma-se que foi retrato de Frei Lourenço Mendes, quero dizer do que por elle passou quando entrou na Religião. E dizem que elle foi o que o mandou fazer em penhor da obrigação que reconhecia a quem lhe fizera tanto bem, que o trouxera da morte a vida, e do mundo á Deos: ou como quem já então fazia conta de se enterrar na morte, aos pés do seu altar, e começava a fazer em sombras, e pintura o que ha- via de ser com eíTeito, e verdade. Também he tradição mui corrente que foi contemporâneo de S. Gonçalo no habito, e residência da mesma villa, e hospital: não na idade, porque S. Gonçalo era velho, e elle muito
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mais moço. Mas o que sabemos do certo lie, que como buscou a Doos com animo determinado, assi se lhe entregou sem querer mais nada dá terra, e se abraçou com toda a austeridade, e rigor de vida, castigando com ella, e com muita dor de sua alma, os annos mal empregados da idade florida. Decia com humildade, e desprezo de si ao centro da ter- ra, e sobia com ardentes desejos, e oração continua ao mais alto do Ceo. Santo, e divino exercício, que continuando por muitos dias lhe moveo o espirito a desejar ver empregadas n*elle todos seus próximos: e tanto com maior elTeito da alma, quanto via a muita rudeza dos ho- mens d'aquelle tempo nas cousas da salvação, e a kúVà que havia de mestres por toda a parte. Quebra va-lhe isto o coração, e sintia não ser letrado pêra poder remediar a todos. Mas conhecendo que não consis- tia só o ministério da pregação em penetrar a alteza dos mysterios Di- vinos, e sabel-os dar a entender aos ouvintes : mas que era a principal parte d'ella insinar os princípios da doutrina Christã, e o que basta pêra negocear, e alcançar o Ceo: persuadia-se que também poderia merecer o nome do habito, que vestia, se pregasse aos mais rudes, e mais neces- sitados: que d'estes he sempre maior o numero. Foi o instincto de ver- dadeira charidade, e a obra de verdadeiro humilde. Assi começou a bus- car polas aldeãs os velhos rústicos, e gente simples: assentava-se com elles, insinava-lhes o que havião de crer, como se havião de confessar, como havião de rezar, e encomendar-se a Deos. Oh quanta rudeza ha n'estas matérias, que importão tudo, entre muitos que se prezão de agudos, e sábios em outras, que nada servem ! Custava-lhe muito tra- balho desbastar aquelles entendimentos grosseiros, e boçaes: mas o Se- nhor, que promette graça, e favor aos humildes, ajudava-o de maneira que fazia notável proveito pola terra: e consolando-o com lhe mostrar o fruito, animava-o pêra mais trabalhar. Bem he de crer que passaria n'este tempo outras fadigas, que se não quebrantavão o corpo, farião seus ti- ros ao coração com pena, e tentações apertadas : digo huns desprezos dos parentes, huns risos maliciosos, cousa própria dos que se estimão muito, e cuidão que só acertão com os nomos das cousas. Chamando vileza áquelle pouco caso, que Frei Lourenço por amor de Deos, fazia de si, animo baixo, e apoucado, andar em taes exercícios de doutrina entre enxames de mininos, nas terras grandes: ou nas aldeãs entre ban- dos de pobres, gente rústica, e agreste, pouco cortez, e pouco limpa. Provava o Senhor a seu servo por estes moios: e acliaudo-o íiel, e pru-
PAHTICULAR DO REINO DE PORTUGAL 49
dente, e em seu serviço constante, acodia-lhe, com grandes, e extraor- dinários favores. 11(3 cousa certa, que discorrendo por todos os lugares de Anlredouro, e Minho vio confirmada sua doutrina com grandes mi- lagres, dos quaes não chegou aos tempos presentes, a pontualidade dos modos, e numero, senão de mui poucos, chegando-nos a certeza que forâo muitos, como se verá polas memorias, que ao diante apontaremos. Persuadia, e aconscllíava hum dia a hum homem mancebo, que per- doasse certo agravo, a quem conhecido de sua culpa lhe queria pedir com humildade perdão, e desde logo lh'o mandava pedir por elle. Per- deo-lhe o respeito o agravado, dando. feros por resposta, e renovando com ira propósitos de vingança. Disse-lhe o Santo que olhasse por si ; que aquillo era obra do demónio, em que andava revestido. Pagou a advertência santa com segunda resposta, nada menos soberba que a primeira. Mas não erão beiíí passados três dias, quando o pobre se vio atormentado do enemigo infernal, e conheceo cora seu mal, a verdade do bom coiíselheiro. Yem-se a seus pés com lagrimas, e vergonha; pede remédio, e alcançou-o fazendo o Santo oração por elle. Deixou-o logo o demónio livre: e assi deixou a muitas outras pessoas, que atormentava, só com a voz, e império de Frei Lourenço. Da mesma maneira se es- creve que obedecião ao tacto de suas mãos as enfermidades, e atè a mesma morte ; o que se vio em doas homens que sendo passados da vida, tornarão a ella por sua oração, e merecimentos. E como tudo o mais que podemos contar em matéria de milagres, fica sendo de menos consideração á vista de mortos resucitados, diremos somente hum. Per- dera hum pobre Clérigo a vista de ura olho, por caso accidental : sintia muito a falta, persuadio-se, polo que sabia das grandes virtudes do Santo, que se lhe posesse suas mãos, receberia saúde: foi-se a elle com esta confiança, fez-lhe sua petição chea de fé, e não se enganou: porque da- li tornou são.
Não devemos ter por menos milagre que os grandes a emprcza que acabou da ponte, que chamão de Cavez. Andava pregando por aquellas partes; vio com seus olhos o trabalho, ,e perigo com que se vadeava o rio (e he o mesmo Tharaega, que muitas legoas adiante passa por Ama- rante, por baixo de outra ponte, obra de S. Gonçalo, que lhe deu o no- me) rio grosso de agoas, e furioso a maior parte do anno : considerou a necessidade que os naturaes tinhão de o passar a miude, pêra seus serviços: compadeccrão-sc as entranhas que ardião em charidado. Pa-
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receo-llie que se lhes desse remédio com huma ponte, faria muito ao caso o bem temporal, pêra abraçarem o espirito da doutrina. Acomme- teo a obra: deu-ihe Deos graça com os poderosos, pêra acodirem com esmolas, elle acodia com a presença, e com suas orações, e taes orações que segundo achamos em huma memoria, escrita polo Doutor Frei João de Braga, no anno de 1415, e acrecentada polo mesmo no de 1434, sen- do Prior n'este Convento, erão poderosas pêra fazer crecer o pâo, e o vinho aos trabalhadores; e quando faltava conduto metendo o bordiío na agiia do rio, acodia o peixe, e se deixava tomar quanto o Santo queria, como tinha acontecido, poucos annos antes, no mesmo rio, mas em dif- ferente paragem a S. Gonçalo, quando lhe lançou a sua ponte em Ama- rante. O que veremos em outra parte d'esta Crónica, em lugar pró- prio; ainda que muitos annos despois do successo, por ser assi for- çado. E como também tinha succedido, e primeiro que a ambos ao Santo Frei Pêro Gonçalves Telmo, na que fez sobre o Minho, como adiante se dirá. Aqui diz a mesma memoria, que foi o lugar onde o Santo Frei Lourenço resucitou hum dos dous mortos que atrás conta- mos. Em fim a ponte se acabou de obra tão firme, que dura até hoje, e promette durar muitos mais annos.
CAPITULO XVI
De hum mysterioso caso que aconteceo no Santo Frei Lourenço em terra de Chaves^ continuando o santo ministério da pregação.
Em muitas cousas outras se vio a valia que este Santo tinha diante de Deos; mas sobre todas he celebrada huma em que sua divina bon- dade mostrou querer-lhe fazer extraordinário favor; e por ser tal me pareceo tresladar aqui a relação própria, que d'ella anda no Convento de Guimarães, a qual polo que se deixa ver do pergaminho em que está, he tão antigamente escrita quasi como passou o successo. E tirada de verbo ad verbum diz assi.
Sanctus Frater Laurentius Menendius, qui in isto quiescit Convenlu, fuit prcedicator ApostoUcus sancta^ vitw et doclrinoe, et in multis partibus hiijus regni glorioso prcedicavit. Eleemosunis etiam acquisitis pontem ; qui dicitur de Cavez, feclt cediftcare. Precibus suis et meriíís coram Deo duos
PAIITICLLAU DO l\ELNO DE PORILGAL 51
morhios suscilavit. liem ciim apud oppidum de Chaves, tibi prcedica<;at, qnadatn die amhularet in agro causa studendi et firmandi memoriam pro concione facienda; sócio suo seorsim eum d longe atlendente, quidam Ange- lus ad eum venit per viam^ et in eodem loco, in quo deambiilabat, illi tra- didit quandam parvam arcam ligneam, quam ajferehat, multis et variis re- reliquiis plenam : et eum illam in manus eis reponeret, sancto viro dixit. Jíodie íraditur in manus infidclium qumdam civitas Cíirislianorum propter illorum peccata; et propterea tibi Bens lias reliquias per me tradi jubet, nt illas ad tuam Convenlum reverenter custodiendas deferas. Quibus di' et is Angelus in eodem loco disparuit: socius vero illius, qui a longe prós- piciens per planum et spaciomm agrum, invenem noverat ad D. Lauren- tinm accedentem^ et eum eo loquentem: postquam deprehendit illum ab ocu- lis suis suhlaíum, absque hoc quô per aliqnam viam reverteretiir, mirnitis rei novitatcm a D. Laurentio qum sivit postea, quis nam illum convenisset. Accedentem enini, inquiebat ille, prospexi, sed minimé postea discedentem. Ad hwc Beatus Laureníius, Quandoquidem, ait. Deus tibi óculos dignatns est aperire, ut divinum illud cerneres spectaculum, dignabitur etiam, nt ego tibi occultum mysterium, quod mihi commissum est, revelem. Scias, Fraler^ quod liodie tradilnr in manus Pagnnorum quoidam civitas Chris- tianoruni: et invenis ille quem vidisti, Angelus erat ccclestis^ qui mihi ex eadem infortunata urbe hanc reliquiarum capsulam, Deo ila nobiscum misericorditer operante tradidit. Et deinde illi sacrarum reliquiarum ca- psulam, quam sub pallio habebaf, oslendit.
Em vulgar tem a significação seguinte.
O Sanlo Frei Lourenço Mendes, que n'este Convento está sepultado, foi pregador Apostólico, de santa vida, e doutrina, e pregou por muitas partes d'este Reino com muito nome, o louvor. E Com esmolas que bus- cou, e ajuntou, fez a ponte de Cavez. Por suas orações, e merecimen- tos diante de Deos resuscitou dous mortos. Também lhe aconteceo na villa de Chaves, onde pregava, que passeando hum dia pola veiga d^ella apartado de seu companheiro, por occasião de hum Sermão que havia de pregar, e o andava passando pola memoria, chegou a elle como de caminho hum Anjo, e lhe entregou hum i caixinha cheia de muitas e dif- ferentes reliquias : e pondo-a nas mãos do Santo: Hoje, disse, entra em poder de infiéis huma cidade de Christãos poios peccados que n'cll3í se
52 I.1VÍ10 IV DA HISTORIA DE S. DOMJ.NGOS
comotiáo, E por isso te manda Deos entregar por mim estas relíquias, pêra que as leves ao teu Convento, onde com reverencia estejâo guar- dadas. E acabando estas palavras, desapareceo. Mas o companheiro que dado que estivesse longe, como a veiga era cham, e limpa, notara a che- gada do Anjo, e julgando ser hum homem ordinário, o vira com elle fa- lar, vendo-o subitamente desaparecido diante de seus olhos, sem tomar nenhum caminho da veiga, pareceo-lhe caso peregrino ; e maravilhado de tal novidade, perguntou despois ao Santo, que homem era o que alH fora ter com elle. Porque eu (dizia o companheiro) vi bem quando che- gou a vós. mas ao despedir não sei por onde se sumío, que o nâo pude mais ver. A isto respondeo o Santo Frei Lourenço : Já que o Senhor Deos foi servido de vos abrir os olhos pêra tal vista alcançardes, tam- bém o será de vos eu descobrir o segredo do mysterio que se me fiou. Sabereis irmão, que hoje se perde, e entrega em mãos de infiéis huma cidade de Ghristãos : e aquelle mancebo, que vistes, era Anjo do Geo, o qual me entregou esta caixa de relíquias tirada da infelice cidade, por particular mercê que o Senhor por suas misericórdias me quiz fazer. E apoz isto mostrou-lhe a caixa que tinha debaixo da capa.
Grande altercação ha entre os escritores sobre que cidade seria esta, donde Deos foi servido salvar estas reliquias, pêra honrar com ellas hum Convento de S. Domingos, e a villa de Guimarães com honra, e credito de seu servo Frei Lourenço, a quem as mandou entregar. Mas como não sabemos ao justo em que anno as recebeo, todos os discursos, e alter- cações vão fundadas no ar. O Padre Frei Fernando de Castilho quer fos- se a cidade em Africa, e não lhe dá nome; sendo assi que já neste tem- po não havia iiella lugar de importância possuído de catholicos ; porque toda era conquistada de Mouros. Mais provável cousa he que fosse na Sy- ria, porque por este tempo a vinhão conquistando infiéis. E huns dizem que seria Antiochia, outros Ptolemaida ; e assi vão buscando os annos cm que se perderão estas cidades, pêra os accommodarem ao tempo do successo das reliquias. E a ordem direita devia ser saber primeiro o anno em que as reliquias se derão, porque então ficara fácil de achar a cidade perdida correndo as historias antigas. Mas como não he possí- vel alcançarmos este anno, porque as memorias que temos o não espe- cificão, fica também perdido o trabalho de buscar a cidade, visto como cada dia hiúo os enemigos ganhando muitas.
PAKTICULÂR DO UEIXO BE PORTUGAL 0^
A memoria referida como fala em Convento do Santo, e n"elle man- da guardar as relíquias, mostra que já era edificado este de Guimarães. E ainda que se podia entender por Convento na embaixada do Anjo a re- sidência de Frades, que de ordinário assistiâo no Hospital, da qual, como atrás dissemos, lhe ficou o nome de Hospital de S. Domingos : não ha duvida que o Santo vio em seus dias o Convento acabado. Porque nos consta de sua vida, por huma escritura authentica, assinada de sua mão, e sellada com o seu sello, como então se costumava, no anno de líi79, no qual tempo era já o Mosteiro edificado. A escritura temos hoje viva» e por abreviar a deixamos. A matéria era partir as terras, em que ha- vião de pregar os Religiosos do Porto, e Guimarães, pêra saber cada Convento as que estavão á sua conta. E fizerão a demarcação o Santo Frei Lourenço, e Frei Vicente Egas, ou Viegas, com os Priores Frei João Martins do Porto, e Frei Miguel Sueiro de Guimarães, por mandado, e commissão do Provincial. Pola qual razão como nos consta a verdade da entrega das relíquias ao Santo, e que vivia despois do Convento acaba- do, e que as mesmas com a mesma caixa estão hoje n'elle, fica o debate de lhes buscarmos a cidade donde vierão, mais curioso, e pêra gosto, que importante pêra a Historia.
CAPITULO XVH
Da forma, e feitio da eaixa que o Anjo deu ao Santo Frei Lourenço : do numero^ e calidade das rdiquias que nella havia. Apontão-se alguns tes- timunhos, que derão estrangeiros, da santidade de S. Frei Lourenço ; e o sitio em que estão seus ossos.
A caixa he da feição, e feitio de huma arca ordinária, com sua fe- chadurinha de latão na face : tem de comprimento hum palmo grande, e ires dedos ; e de largura hum palmo menos três dedos ; e meio pal- mo de altura. Levantado o tampo, mostra-se por dentro marchetada em partes, e em partes pintada, e está repartida em escaninhos, e gavetas, e todas miúdas conforme a estreiteza do lugar, e postas de maneira, que humas tem seus tampãosinhos, outras correm como em escritório. Por ellas estavão repartidas as santas relíquias, envoltas cada huma em seu sendal : e os sendaes de varias cores. Erão muitas em numero, e todas sinaladas com seus rótulos (exceilo algumas poucas que os não tinhão)
5Í LIVRO IV DA HISTORIA DE S. DOMINGOS
do letra, e lingua Latina, cousa que me faz nao pouco espanto, quando sospeitamos que vierão de Ásia, ou Africa. E porque nâo nos fique nada por dizer, nem aos devotos, e curiosos que desejar, nomearemos todas as que tinliâo leira, que são estas.
Do santo lenho da Cruz de Christo Nosso Senlior. Das mantillias de Ghristo quando era minino. Da pedra do sepulcro de Christo. Da pe- dra d'onde subio aos Ceos. Do veo de Nossa Senhora. Do sepulcro de Nossa Senhora. Dos Santos Apóstolos S. Pedro, S. João, Santo André, ;^. Filippe, Santiago, S. Bertolameu, S. Mathias. Do Maná. Da sepultura de S. João Evangelista. Da vara de Moysés. Dos Santos Innocenles. De Santo Estevão piimeiro iMartyr. S. Sebastião. S. Lourenço. S. Braz. S. Jorge. S. Veríssimo. S. Ilypolito. S. Paulo Martyr. S. Crecenciano. San- to Eugero. Do habito de S. Pedro Martyr quando o matarão. De S. Sil- vestre Papa. S. Martinho, Santo Agostinho. Santo Ambrósio, S. Francis- co. S. Domingos. S. Hieronymo. S. Bento. S. Bernardo. S. Roberto. Do Abbade Moysés. Ossos de Santa Maria Magdaiena. De Santa Úrsula. De algumas das Onze mil Virgens. De Santa Luzia. Santa Ignez. Santa Ceci- lia. Santa Justina. Santa Comba. Santa Justa, e Rufma. Santa Brigida Virgem. Santa Clara. Huma ambula do óleo que mana do sepulcro de Santa Caterina Martyr. Outra do que mana da sepultura de S. Nicoláo.
Trouxe o Santo Frei Lourenço a sua caixa pêra o Convento, como lhe foi mandado ; collocou-a na sacristia em lugar decente. E porque as grandezas de Deos he bem que se publiquem; manifestou esta pola ter- ra, dando mostra das santas relíquias ; e ao propósito amoestando os po- vos ao temor de Deos, com o castigo da cidade que desemparara ; e ao seu amor com a mercê de mandar aquelle thesouro a Portugal. Nasceo da publicação mandarem as visinhos de Chaves levantar hum padrão no mesmo lugar em que o Santo recebeo a caixa, e pintar n'elle por me- moria o successo ; como também se pintou então na Igreja do Convento, em huma parede junto ao altar de Nossa Senhora do Rosário. Mas por- que os Religiosos advirtirão que algumas das relíquias se espalhavão, e corrião risco de se perderem pola continuação com que erão buscadas, e vistas de muita gente, admirada tanto da calidade d'ellas, como da ma- ravilha com que vierão ; determinarão com santo zelo segural-as. Pêra o que o Doutor Frei João de Braga, segundo elle mesmo refere, ordenou humas taboas grandes que se cerrão como livro, nas quaes as foi assen- tando cada huma em seu nicho, com suas vidraças sobrepostas, e guar-
PARTICULAR DO REINO DK PORTUGAL ^5
necidas de prata, e ouro pêra decência, e arrecadadas com firmeza pêra resguardo. E aponta este Padre, que o ouro, e prata, e o custo do fei- tio recebeo do Padre Frei Pedro de Freitas, que o devia procurar por gente devota, ou havel-o d'entre seus parentes (como d'esle apellido ílo- recia então muita nobreza) e por tão boa diligencia nos pareceo que me- recia seu nome não ficar fora d'estas memorias.
Sendo taes as obras de S. Frei Lourenço, e elle por ellas tão digno de lembrança, he muito de sintir não lermos nenhuma de como, nem quando, nem onde acabou seus santos dias. Rudeza grande (que não tem outro nome) igual culpa, e ingratidão d'aquella idade. E também se perdera a de seus santos ossos, se o Senhor, que sempre foi cuidadoso de honrar até a terra fria dos que o bem servem, os não fizera celebres, e esclarecidos, como fez, com muitos milagres. Trouxerão-n os comsigo os Frades na tresladação do Convento ; e por mão do mesmo Doutor Frei João de Braga tantas vezes nomeado os passarão, segundo elle nos deixou escrito, a hum archete de pedra, que encaixarão em huma pare- de da Igreja junto a hum altar, que então havia de S. Braz. Aqui ensi- nou a devação ou a necessidade aos que se querião d'elles valer, hum meio pêra os gozar: que foi darem hum furo na pedra que a penetra dentro, e por elle os tocavão cora a ponta de huma vara, e achando re- médio recebião também consolação. Com tudo pelo tempo em diante pa- receo indecencia, e pouca fé inquietar as relíquias santas ; e pêra se evi- tar, tratarão os Religiosos de as passar a lugar mais alto. E assi pare- cem agora sobre o alto do retabolo, e altar do glorioso Santo Thomas de Aquino, aonde as fez tresladar hum devoto em outro novo archete bem lavrado, e dourado, e com sua letra, que declara o nome do Santo. Em huma lembrança achamos, que no primeiro Convento estavão junto ao altar de S. Pêro Gonçalvez. E por outra se mostra, que quando o Pa- dre Frei João de Braga accommodou nas taboas as santas relíquias da caixinha do Anjo, deixou de fora em huma arca guardadas algumas que lhe não couberão, e poz com ellas muitas outras das onze mil Virgens, e de alguns Santos mais, as quaes trouxera de Colónia o Doutor Frei • Aííonso do Rego: e juntamente parte de huma queixada do Santo Frei Lourenço ; que quiz deixar de fora pêra consolação de seus devotos.
Mas em falta das mais memorias que desejamos, e poderamos ter por via de nossos naturaes, (Feste Santo, temos consolação de referir as que fizeião os estrangeiros; as quaes assi como são prova de sua cha-
I
DG LIVRO IV DA HISTORIA DE S. DOMINGOS
ridade, lambem o sâo da força, que lhes fazia a fama que (l'elle voava. O Mestre Frei João Theutonico, no livro que compoz dos varões illus- lies da Ordem de S. Domingos, tratando dos Santos Portuguezes, diz d'elle luirnas breves palavras, cuja significação he:
Frei Lourenço pregador mui famoso^ não somente resplandeceo em scien- cia, e cm santidade de vida, mas também teve particular graça contra os Demjnios.
Conhecida he no mundo por cousa insigne a xVbbadia de S. Victor de Paris, de Cónegos Regulares. Na livraria d'ella, que também he cousa insigne, ha hum grande catalogo de Santos de todas as Ordens; e entre os de S. Domingos, está nomeado o nosso S. Frei Lourenço, com huma curiosa declaração, que he dizer que sua imagem se costumava a pin- tar arrimada a hum loureiro; o que parece ser allusâo do nome Lou- renço. Bem conhecido devia ser, onde com tanta particularidade se tra- tava d'ell8. E polo contrario em sua pátria, he tao peregrino, que alem de não acharmos o successo de sua morte, ignoramos muita parte de sua santa vida, em que não podia deixar de haver outras cousas gran- des. Mas isto he magoa sem remédio, e em que havemos de cair mui- tas vezes, o em cada Convento. E pola não acrecentarmos com a quei- xa, passemos adiante, e vejamos se achamos memoria de outros filhos d'estô Convento (quando não seja, como não pode ser, dos primeiros tom[)os) ao menos de alguns mais chegados a nós.
CAPITULO XYIII
Da virtude^ e santo fim de alguns filhes d'este Convento.
Por illustre varão, e filho doeste Convento nos conta o Mestre Frei António de Sena(l) a Frei Gonçalo de Guimarães, Mestre emTheologia, e pregador famoso, que íloreceo poios annos do Senhor de 1520. Conta-se d'elle que era tão pontual, e continuo nas obrigações principaes de Re- ligioso de S. Domingos, que são altar, coro, e púlpito, que tratando al- gumas vezes da morte, dizia, que em hum d'estes três lugares havia de ser a sua. E foi género de profecia ; porque estando hum dia são, e valente, tendo dito sua Missa, e assistindo no coro em huma solene, que ajudava a cantar de festa principal, succedeo que o pregador, a
(1} M. Vr. António de Scnn, na sua Chron. foi. 3CÍ5.
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quem estava encomendado o Sermão d'e]Ia, teve hum mal súbito, e tâo forte, que ficou impossibilitado pêra o fazer. Eera o defeito grande pêra qualquer dia, quanto mais em solemnidade. Não havia de quem valer com confiança, senão de Frei Gonçalo. Mandou-lhe o Prior que acodisse a suprir a falta. Não fez elle mais que tomar a benção, e ir-se ao púl- pito. Subido n'elle tomou por Ihema; Gaudent in Coslis animce Sandorum. Tema, que nem vinha a propósito do dia, nem dizia com a occasião de o fazerem tomar o trabalho extemporaneamente. Mas parece que foi es- pirito do Senhor que o chamava : porque como se estivera á vista da gloria, que gozão os bemaventurados, começou a tratar dos bens, e fe- licidades d'ella, e foi discorrendo com pontos tão levantados, e consi- derações tão devotas, com tamanhos encarecimentos de saudades da pre- sença, e visão beatifica do Senhor, que engolfado na suavidade do que dizia, e sintia, se suspendeo a si, e aos ouvintes n'ella, de sorte que en- cantados todos, como se fora a musica, que dizem das sereas, nem elle se fartava de dizer, nem elles cansavão de ouvir: e quando concluio en- tão lhes parecia que começava. Assi foi geral o espanto, e devação que causou em todo o género, e estado de gente. Mas pêra elle foi canto de cisne, porque subitamente ficou tão enfraquecido que foi necessário virem frades tiral-o do púlpito, e levarem-no em braços pêra a cella. Pa- receo logo o acidente mortal, e creceo o mal com tanta pressa, que den- tro de dous dias se foi gozar dos bens que tão vivamente soube repre- sentar, e se lhe representarão. Diz d'elle o escriptor referido que teve algumas cousas quasi milagrosas. E a presente bem merece o nome: porque se consideramos o que em vida dizia, e o que lhe aconteceo na morte, morreo huma só morte, e esta juntamente nos três lugares que apontava: porque do altar, onde pola manliã estivera, deceo pêra o coro, do coro pêra o púlpito, e do púlpito pêra a sepultura.
Por differente carreira fez o mesmo caminho outro Frei Gonçalo cha- mado de Santa Maria, e filho também d'este Convento. Sendo grande homem de oração sobre outras virtudes de que era espelho, perseguia-o o demónio visivelmente quasi a toda hora, porque em todas o achava orando. Que como a oração não seja outra cousa, senão hum levanta- mento da alma a Deos, com desejo de o servir, amar, e gozar (oração que todos podem ter com facilidade, e todos devíamos continuar sem se nos passar momento isento d'ella) o enemigo, que nenhuma cousa mais aborrece, fazia-lhe fortes perrarias polo divertir d'ella. E o bom
SS LIVRO IV DA HISTORIA DE S. DOMINXOS
Religioso andava tão embebido no santo entretimcnto, que nâo tinha outra vida: e dos insultos do enemigo fazia tão pouco caso, como se forão cocos de mininos. E todavia erão terribeis os medos com que o acommetia, e procurava inquietar; mas ficava sempre vencido. Não nos deixarão escritas particularidades os que d'isto escreverão: só arrema- tão dizendo, que sendo sempre vencedor de tão forte contrario, venceo também longos annos de vida, e no cabo se foi gozar da eterna com claros sinaes que era chamado do Ceo pêra ella.
Não era menos Religioso hum irmão leigo, filho do mesmo Convento, cujo nome estando escrito no livro da vida, não foi Deos servido que o soubéssemos, pêra o podermos escrever n'este. Tinha corridos sessenta annos de professo, e de muito bom serviço na Religião, quando visitando hum dia na villa a hum Clérigo amigo seu que morria, lhe disse em modo de consolação, e esperança de saúde, mas com espirito profético segundo logo se vio: Ora Padre, bom animo, que assi como fomos ami- gos em vida, havemos de ser companheiros na morte, e enterrados no mesmo dia. Não estava já o Clérigo em estado de se alegrar com o que parecia boa nova, vista a boa saúde de quem lh'a dava, e sua santidade, com que muito se acreditava. Era velho, e a enfermidade mortal, aca- bou dentro de dous dias. Deu-se recado no Convento. Sahio a Commu- nidade pêra o acompanhar á sepultura; tomou sua capa o leigo, e foi-se com ella, que andava bom, e rijo ; e tal se levantara aquella manhã. A poucos passos chegou-se ao Prior, pedio-lhe licença pêra se tornar, dizendo que se sintia abalado, e temia algum acidente. Como era tão ve- lho que passava de oitenta annos, pareceo bem recolher-se logo. Tor- nando a Communidade pêra casa, visitou-o o Prior, e achou-o em estado, que não houve mais lugar, que porá breve confissão: e sendo absolto das culpas, juntamente o foi das prisões da carne, Assi veio a ser se- pultado com seu amigo no mesmo dia.
Não he razão ficar- nos por dizer, porque redunda em gloria doeste Convento, que forão os Padres d'elie fundadores de outros dous nos tempos adiante, que a Ordem aceitou em Villa Real, o Amarante, como veremos em seus lugares próprios. Nem menos pode esquecer a religio- sa conformidade, que de tempos antigos se guarda, e mantém entre os Cónegos da Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, e os Frades do nosso Convento, e do de S. Francisco. Falecendo qualquer Religioso em S. Do- mingos, dá-se recado ao Cabido, c a S. Francisco; acodem com pontua-
PAUTICITLAU DO REINO DE PORTUGAL 59
litbde, e como s«3 Ibrão Frades nossos, fozem no Dormitorjo o OÍTicio (la C»)mmendação. Logo levâo o defunto á Igreja dous Cónegos, e dons Frades de cada ordem, e os mais acompanhâo com suas velas nas mãos, c assistem no oííicio da sepultura. No dia seguinte torna o Cabido á igreja, e canta um Nocturno, e Laudes com Missa polo defunto : e n"elle assis- te também a communidade de S. Francisco. A mesma correspondência se tem do nosso Convento com ellos ; e importa muito esta liga, e ir- mandade pêra conservação de paz, não somente entre as Religiões, e o Clero, mas pêra com seu exemplo acodirem ás desavenças, c enemiza- des que sucedem entre os moradores, e como de mão commum porem remédio n^ellas.
CAPITULO XIX
De uniras antiguidades que ha neste Convento dignas de memoria; e da grande devaçdo que a villUy e comarca tem com S. Pedro MdrtgVy e Santa Caterina de Sena,
Ordinário he nos Conventos da Ordem edificar-se juntamente com a Igreja altar, e capella de Nossa Senhora do Rosário, como atrás dei- xamos apontado. Mas as Confrarias não são igualmente antigas; em hu- mas partes começarão primeiro, em outras despois. N^esta villa se ce- lebra esta festa polo mez de Maio, com solenes procissões publicas, e extraordinárias alegrias; e lie cousa tão antiga, que se lhe não sabe prin- cipio. Na Confraria, que he mais moderna, entra toda a nobreza da terra; e a capella tem particulares graças que forão impetradas do Roma por hum Religioso d'esta Provinda, pessoa de muita autoridade, e Mestre em Theologia, chamado Frei Gaspar de Lamim.
Mas a festa de S. Pedro Martyr he cousa sabida que começou n'csta villa juntamente com o Convento, e capella que n'elle tem; celebrava-se com procissão publica, e muitos gastos; e era tamanho o concurso do povo de toda a comarca, e outros lugares visinhos, e até de Galiza, que havia no mesmo tempo, e hora duas pregações em lugares distinctos. São de ver humas palavras da bula de indulgências que o Papa conce- deo ao seu altar, que testemunhão bem esta devação, e dizem assi.
Cuplentes ut capella Sancti Pelri Martijris situata in Monasterio Sancti Dominici Ordinis Prwdicatorum in Yimaremi Bracharensis dioecesis, ad
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qnam certis anni temporibiis, sicnt intelleximus, oh Dei et ipsius Beati Pe- tri devotionem, reverenlianiy et honorem, tam longinquarum, qiiam proxi- marum confluit partiuin populi miãtitudo magna congruis honoribus fre- quentetur^ et a Christi fidelibus jugiter : ac ut (ideies ipsi eo frequentius devolionis, orationis causa conjluant ad eandem, nec non ad ipsum Monas- terium^ in cujus immunitate dieta capella sitnata est.
Estava fresco, e como correndo sangue na memoria dos homens o martyrio do Santo; e estava a fé na Cliristandade de Portugal mui pura como sempre, e sem labeo; era grande o fervor de devaçâo com quem por ella dera a vida. E como os Santos sâo agradecidos, não faltava com milagres, e soccorros do Geo aos devotos, como também fazia por ou- tras partes. Assi lhe forão levantando por toda Espanha ermidas, ca- pellas, e altares. E em Guimarães era venerado por todo o discurso do anno; e ainda que veio a faltar polo tempo adiante a gente de fora, com tudo a da villa continuou sempre com o respeito do Santo costumado ; e a essa conta quando succede fazerem-se na terra algumas procissões pêra alcançar de Deos, ou agoa pêra as novidades, ou serenidade de tempo pêra a terra, tirão os Frades n'ellas a imagem do Santo. Tem a sua Capella mui boa renda, que lhe foi deixada por Álvaro Pereira, Irmão do famoso Condestabre dom Nun'alvares Pereira, o por Gonçalo Pereira seu parente, que ambos estão n'ella sepultados: e consta que elles fo- rão os que lhe impetrarão de Roma as graças de que gozão os que a visitão.
Não podemos negar estarmos em grande divida ao povo d'esta villa pola affeição que tem aos Santos da Ordem. Porque celebrando com tanta vontade, e obras, como temos dito, a S. Pedro Martyr: passão com muitas ventagens na memoria de Santa Caterina de Sena. Tem-na os moradores da villa, e de toda a comarca por sua particular advogada, e padroeira, desd'o dia que a fama de. sua santidade chegou a Portugal. A Confraria he servida sempre poios melhores da terra, seculares, e também Ecclesiasticos : e he ordinário andarem em competências a quem sairá com mais custosa armação na Igreja, com melhores invenções na procissão, que também he publica por toda a villa. A festa se celebra o primeiro Domingo de Maio, com numero infinito de povo que a ella acode. Mas o que devemos estimar, e louvar muito na gente d'este grande lugar he, que sendo as festas temporaes, que era honra, e reverencia
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dos Santos fazem, todas de muito custo, e concerto, de nenhuma ma- neira se esquecem das espirituaes, porque pêra todas sabem procurar suas indulgências; e as d'esta Confraria são desd'o tempo do Papa Six- to quarto que foi no anno de 1474. O altar da Santa he visitado este dia, e noite com tanta continuação, que a Igreja está sempre cheia a to- da a liora. Os perdoes, que se hou\Trão pêra o dia da festa, se ganhão lambem em outros três do anno, que são sesta feira de Endoenças, em memoria das chagas que o bom Jesu em tal dia por salvação dos homens recebeo, e despois por particular favor á sua serva communicou. Os outros dous dias são também mui a propósito do espirito da nossa Santa. Hum he o de Santa Maria Magdalena : e outro o de Santa Caterina Mar- tyr. A huma chama a Igreja Apostola dos Apóstolos : a outra foi mestra de Doutores.
Está o altar, que se visita, no meio do corpo da Igreja encostado a huma coluna. E se isto acontecera de propósito, por feito o déramos com acertado conselho: porque he tamanha a frequência, com que he visitado, que se não poderá revolver o povo quando estevera em outro sitio ou capella por grande que fora. E em testemunho d'esta devação será bem dizermos o que se vê aqui em hum dia celebre do anno. Ha hum voto antigo doestas comarcas, polo qual vem as Freguezias juntas com seus Parochos, e cruzes visitar a insigne Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, na primeira sesta feira da Goresma, á qual por esse respeito derão nome da sesta feira das cruzes: e todas as que vem de parte que fição caminho por junto do Convento, c outras muitas, assi como vem era procissão entrão pola nossa Igreja só a fim^de visitarem o Altar da Sanla: e não lhe parece áquella simplicidade bemaventurada que cum- prem bastantemente com soa devação, se de passagem não fazem tocar as cruzes na imagem da Santa. Esta imagem he de pintura, e está em hum retábulo alto, e levantado do altar : he tão grande como a natural. Mostrou o pintor n'eUa tudo quanto a arte pode alcançar de perfeição em representar hum rosto juntamente grave, e fermoso, o n'elle hum animo, e aíTeito devotíssimo : partes que grandemente arrebatão as almas que alli a vão buscar por advogada, e remedead-ora de necessidades. Tem defronte hum devoto Crucifixo, em que está toda enlevada recebendo as chagas. Assi não se sabe a gente sair da Igreja, nem apartar do altar, quando á vista da pintura considerão o estremo de virtudes que resplan- dccco no original: c logo se Icmbrão dos benefícios geraes, e particu-
à
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lares que cada pessoa ou experimentou em sua casa, ou ouvio contar nas de seus visinhos, e conhecidos, que são em grande numero: e tudo aju- da a afervorar, e acender a devação. Diremos alguns no seguinte capi- tulo pêra honra da Santa, e argumento da fé, com que nesta villa he venerada sua memoria.
CAPITULO XX
De oljuús milagres de Sanla Caterina de Scna^ que se virão neste Convento.
Foi insigne milagre, e com que a Santa fez esclarecido o poder que sua intercessão tem diante de Deos, hum em que também se vio o muito que vai a fé de quem sabe pedir. Trazia huma molher (e não era das mais humildes do lugar) huma incharão sobre os narizes fea, e crecida a modo de grande lobinho, que lhe cobria os olhos, e tomava a testa com desformidade tal, que era cousa medonha, e nogenta (te vera prin- cipio de huma nacida que poucas vezes tem boa cura, chama-lhe a ci- rurgia NoH me tangere). Fugia a gente d'ella: e não havia animo tão compassivo, e mavioso, que lhe tevesse os olhos direitos. Era poios an- nos do Senhor de 159G. Vendo-sc sem remédio, e aborrecida da vida, tratou do melhor, e ultimo, que devera ser primeiro: foi-se á Santa, prometteo-lhe huma novena diante do seu altar: comprio-a pontualmente: e a Santa lh*a pagou bem, porque no derradeiro dia estando diante d'ella em oração se lhe despegou, e cahio no regaço toda aquella incha- ção, e carnaça pendente: e foi pêra sua casa sã, e hvre do pejo, e tormento que sintia, e do asco que a todos fiizia.
Huma devota da Santa tinha huma íillia minina doente de muito tem- po de hum mal tão pouco entendido que nenlium medico atinava com elle: nem havia remédio, que lhe valesse, provando-so muitos, como se aplicavão sem conhecimento da causa. Determinou-se em pôr a cura de todo ponto nas mãos da sua Santa : despede médicos, vai-se ao Convento, manda-lhe dizer huma Missa cantada. lie cousa certa que no mesmo dia lançou a minina huma cobra, que sendo medida era já de quatro pnlmos; e ainda que muito delgada, divisavão-se-lhe polo lombo sinais de con- chas. Tornou logo sobre si a enferma, e não sintio mais docDça.
Da mesma devação usou outra pobre molher, o tão pobre que vivia de vender peixe na praça. Tendo huma íillia cega de catai'atas, e faltan-
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do-lhe possibilidade pêra pagar a quem liras tirasse, oíTereceo-a com huma Missa á Santa, e com conílança que ella faria o oíTicio do catara- teiro. E não se enganou ; que de seu altar levou a cega pêra casa com vista perfeita.
Estranho, e espantoso caso foi, que andando hnm minino de mama' com humas moedas de cobre na mão, como esta idade tudo leva á boca, engolio huma das maiores que nos tempos passados valia dez réis, e agora vai três. Ainda que por então não slntia dano, tinha a mãi por certo que não poderia viver longo tempo. Fazia continua oração á Santa pedindo-lhe remédio. x\lcaiK;ou-lh"o ella de quem tudo pode tal, que a cabo de hum anno lançou o filiio a moeda sem nenhum dano.
No anno de 1597 andava na villa huma molher natural d'ella, que vivia de esmolas, e de muitos tempos atrás era tão aleijada, que a rasto liia buscando polas ruas o remédio de sua sustentação. Chegando-se a festa da Santa, que este anno cahio aos quatro de Maio, determinou-se em lhe fazer dizer huma Missa, e encomendar-lhe a miséria de sua vida: arrastou-se por todas as ruas, como sohia, pedindo esmola pêra ella: c tirando da boca pêra acodir á sua devação, foi cousa vista por todo este povo que a conhecia, e celebrada com geral espanto : acabada a Missa, se lhe acabou a aleijão, e se levantou em pé direita, e sã, e assi foi pêra sua casa.
Duas molheres ambas enfermas dos peitos de maneira que huma não podia viver de dores (esta era molher de Gaspar Alvares de Almim), a outra esperava acabar depressa, porque sabidamente tinha já cancro. Soccorrerão-se á Santa, e sem outra medicina alcançarão perfeita saúde.
Não espantou menos, nem lie menos de notar o que agora diremos. Cahio do alto de huma torre do muro da villa (cliama-se a torre de S. Domingos) hum pobre homem, e quebrou huma perna de sorte, que os ossos dentro se lhe fizerão todos não só em pedaços, mas quasi em pó, e como arêa : despois de gastada a sustancia da fazenda com cirurgiaens, e varias curas, ficou pendurado sobre humas muletas, e así5Í passava com muito trabalho. He morte pêra os pobres vida sem saúde, faltando pés, ' e mãos pêra ganhar a mantença. Encomendou-se á Santa com muita efi- cácia : resucitou d'esta morte por seus merecimento : e ficando de todo são, e valente, offereceo em memoria do beneficio as muletas ao altar, e n"elle estiverão muito tempo dependuradas, fazendo-se pregoeiras do trabalho, e remédio do quem as deixou, e do valor da Santa.
Gi LIVRO IV DA HISTOIUA DE S. DOMINGOS
Muitos outros milagres poderamos trazer; porque, sendo modernos os que lemos referido, sabemos de certo que os antigos erâo sem conto, e tantos^ que a coluna da Igreja, a que o altar se arrima, e o mesmo altar, e retabolo estava tudo cingido de argumentos de remédio alcan- çado em diversos trabalhos: por huma parte de mortalhas de enfermos, por outra muletas de aleijados, fundas de quebrados : e compostas de cera cabeças, olhos, e braços em sinal dos que n'este3 membros rece- berão saúde. Mas nâo sofre a Historia alargarmo-nos mais n'esta parte. Só direi que podemos ter por certo que não faltarão nunca n'este lugar maravilhas da Santa : vista a geral devação com que be venerada, e ser- vida, e o muito que as poucas relíquias suas, que n'ella ha, são de toda a gente estimadas. Em tempos atrás havia muitas, que os Frades logo nos princípios da Confraria fizerão trazer, das quaes o povo fazia tanto caso como de hum grande thesouro ; e em todas as Missas da Confraria, que são nas terças feiras de cada somana, queria ver, e tocar o cofre em que estavão. Algumas pessoas priíicipaes, não se contentando só com esta consolação, pedião, e levavão parle d"ellas. Veio hum Prior zeloso, e resoluto, tomou o cofre, encerrou-o em outro guarnecido decentemente, e bem arrecadado de fechadura : e pêra tirar todo o cuidado de haver mais diminuição nas santas reliquias como deu volta á chave, mandou-a quebrar á força de martello, com grande alegria do povo que sabe esti- mar a riqueza que n elle tem, e acode ainda hoje a estas Missas com a mesmo gosto, e frequência que antigamente, á conta de as tocar, e re- verenciar assi encubertas, e escondidas.
CAPITULO XX!
Do que fizerão por este tempo os Religiosos da Provinda em sermço, e por mandado do Summu Pontífice.
Segundo a ordem, que atrás promettemos, de ir acodrndo aos suc- cessos geraes da Provinda, que he o tronco d'esta Historia, despois que nos faltou nosso glorioso Patriarcha autor originário d'ella, temos algu- mas cousas que dizer acontecidas entre a fundação que acabamos do Convento de Guimarães, e a do Convento da cidade de Tuy, que segue apoz elle, e teve seu principio poios annos de 1282. He pois de saber que governando el-Rei dom Affonso terceiro em muita paz, dcscanrado
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já, e livro das inquietaçues que lhe dera por muitos annos sua primeira mollier a Condessa de Bolonha (Bilhon chamão em França) lograva filhos crecidos com gosto, e com disponsação Romana, da Uainha dona Britiz de Gusmão íilha d'el-Bei dom AtTonso de Castella, que muito mava. Mas como ha homens, a quem parece que he natural andar sempre en- golfados em tormentas de trabalhos, e desgostos, nacerão algumas con- tendas entre seus ministros, e os do estado Ecclesiastico, principiadas de matérias de jurdição (como n'este Reino são tão mesturados em muitas cousas os foros Ecclesiastico, e secular) e de pequena faisca, co- mo he ordinário, sahio grande incêndio. Chegarão queixas ao Papa, que era Gregório decimo, entrando no segundo anno de seu Pontificado, que responde ao de Christo de 1282. Quiz ouvir a el-Rei, como era rezão; despachou hum Breve dirigido ao Prior de S. Domingos de Lis- boa, e ao Guardião de S. Francisco, com ordem que desse a el-Rei car- tas particulares, que sobre o caso lhe escrevia : e tomando reposta sua lhe mandassem aviso do que succedesse, em autos juridicamente pro- cessados. O Breve vimos em treslado authentico, e começa assi.
Gregorius Episcoptis servas servorum Dei dilecHs filijs Priori Prcedi- catorum: Custodi et Guardiano Fralrum Minorum Ulixbome salutem et Apostolicam benediclionem. Cum charissimus in Christo filias noster Rex Portvgalliw lílustris, etc.
E he feito em Civita Vechia cinco dias antes das Calendas de Junho no segundo anno de seu Pontificado : que foi no de 1272, aos 28 de Maio. Cumprirão os Frades pontualmente sua commissão. Houve deman- das, e repostas : durou a questão até o tempo do Papa João vigésimo, que outros chamão vigésimo primo, e foi Portuguez, natural de Lisboa, e nacido na Freguezia de S. Gião. Assentou-se este Pontífice na Cadeira de S. Pedro, polo mez de Setembro de 1276 : e como o amor, que ti- nha á sua pátria, o obrigava a desejar-Ihe quietação e paz, despachou a el-Rei hum Núncio Apostólico com poderes de Legado a latere. Chama- va-se dom Frei Nicoláo Espanhol Religioso da Ordem dos Menores : o qual chegou a Lisboa por Fevereiro do anno seguinte. E indo visitar a el-Rei aos Paços do Castello onde morava, foi acompanhado de alguns Frades de S. Domingos, e outros de S. Francisco. Erão os Dominicos Frei Lopo Rodrigucz, que então fazia o ofíicio de Vigário dos (-onvcntos
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quo havia neste Reino por commissao do Mestre Geral da Ordem, e com elle Frei João de Faria, Frei Martinho João de Amiga, Frei Marlim Annes por sobrenome «o qne veio»: Frei Thomas de Sintra, e Frei Pedreanes Físico. Mas sendo recebido del-Uei com toda cortesia, e benignidade de- vida a seu cargo, nâo foi Deos servido qne por então tevesse o negocio fim: antes durou ainda até á entrada do anno de í^79, en'elle se quie- tou toda a diíierença: mostrou el-Rei como bom, e Cathohco Christâo que n'ella nâo tevera nunca outra tenção mais, que conservar com justiça, e rezâo o direito de sua Coroa, e património de seus filhos, e bem de seus vassallos : cousas, a que polas leis de Deos, e do mundo se sintia obri- gado. O que tudo declarou com huma larga, e bem composta pratica ao Prior de S. Domingos, e ao Guardião de S. Francisco, que pêra isso mandou chamar, como Commissarios que erão do Papa na controvérsia que corria. E foi isto em presença do Bispo de Évora dom Durando, e do Thesoureiro, e Chantre da mesma Sé: e do Vigário, c Provisor de Lisboa, e. de alguns Fidalgos, e Capellães da casa Real. Achamos em me- morias que acompanharão aqui ao Prior de S. Domingos Frei Pedro de Alanquer, Leitor de Theologia, Frei Gonçalo Flonoriz, Frei Pedro, Fisi- 00, o Frei João Gonçalves, e Frei Bertholameu, que residião no nosso Convento de Lisboa. Pêra final conclusão quiz el-íiei que de tudo se fi- zesse assento publico com assistência do Príncipe dom Dinis: no quíil poserão seus sellos o Prior, e Guardião, com o Bispo de Évora, e Vigá- rio, e Provisor de Lisboa. E assinarão como testemunhas os mais que presentes erão. E d'este instrumento está otreslado authentico no Carlo- l"io da Sé de Lisboa.
Fdleceo el-Rei no mesmo anno. Succedeo-lhe dom Dinis seu filho, com quem despois de reinar se tornarão a renovar algumas das duvi- das passadas : mas elle as atalhou logo com muita prudência, fazendo composição com o Clero por meio de Martim Peres da Oliveira, Cliontre de Évora, que despois foi Bispo da mesma cidade : e de dom João Alar- tins, Cónego da Sé de Coimbra, que despois foi Bispo de Lisboa, e tam- bém Arcebispo de Braga. A composição passou por hum assento que continha muitos capítulos : e pêra a aceitação d'ella veio bum Breve do Papa Nicolao tercio, que começa: Per alias nostras I iteras, efe, cuja substancia be nomear por Commissarios pêra o tal eííeito, e suas depen- dências, e- annexidades aos mesmos Prior de S. Domingos, e Guardião de S Francisco de Lisboa. Em todas estas cousas cumprindo os nossos
PARTÍCULA 11 DO liElNO DE POHTLGAL 01
Religiosos pontualmente o que devião ao mandato do Pontifice, procura- rão com todas suas forças servir os Reis, como medianeiros de paz, e quietação : e pola satisfação, que os Principes tinhão de suas pessoas honra vão a elles, e a Ordem em todas as occasiões. E logo poios annos de 1280 tratarão de fundar o Convento que a Ordem tem na cidade de Tuy, que he septimo dos que contamos no Reino de Portugal, seguindo a rezão, e fundamentos que no seguinte capitulo veremos.
CAPITULO XXII
Fundação do Convento de S. Domingos da cidade de Tny.
Está situada a cidade de Tuy na ribeira direita do rio Minho, onde o Reino de Galiza parte com o de Portugal, ficando-lhe fronteira sobre a praia contraria a villa de Valença em lugar alto, e forte. A cidade he Episcopal, e tão antiga, que quer referir sua origem e nome aos Gregos. e ao Capitão Tydeo. Porque em tempos atrás lhe chamavão Tyde, e des- pois Tude, que vem a ser o mesmo, passando o y Grego em v, como he costume dos Latinos. Trazendo guerra el-Rei dom Sancho primeiro de Portugal com o de Lião dom Aííbnso poios annos do Senhor 1198 entrou por Galiza poderoso, e fez-se senhor doesta cidade, e da villa de Pontevedra, e dos mais lugares de sua comarca. E sustentando todos em sua obediência em quanto viveo, ficarão despois unidos á Coroa do Portugal por muitos annos ; do que he bastante prova o testamento do mesmo Rei que os ganhou ; no qual se vé que deixando largas esmolas a todas as Calhedraes do Reino, nomea também sem clausula nem distin- ção a de Tuy como de terra sua(l); e não sendo com ella menos liberal que com as mais, lhe manda dar três mil morabitinos de ouro, que se- gundo a valia d'aquelle tempo que atrás fica declarada, importava o le- gado pouco menos de quatro mil cruzados. Esta mesma posse se collige do que escreve o Rispo dom Frei Prudencio deSandoval(2), dizendo que no anno do 1218 deu el-Rei dom Affonso de Portugal (que era o segundo d'este nome) ao Rispo de Tuy os dizimos dos direitos Reaes de toda • aquella diocesi. E em tempo del-Rei dom Affonso terceiro, quando todos
(1) Duarte Nuni5 de Liilo, na vida do D. SaKcho I, fui. 66. (2) Na Uiítoría tio Tey .•
foi. li,-.
*
C8 LlVnO IV DA HISTORIA DE S. DOMINGOS
OS Prelados do Reino se juntarão pêra mandarem siipplicar ao Papa que o dispensasse no casamento contraindo com a Rainha dona Breitiz, filha del-Rei dom AÍTonso deCastella(Í), e juntamente houvesse por legitimo o Príncipe dom Dinis, por ser nacido em tempo que vivia sua primeira molher a Condessa de Bolonha, está nomeado, e assinado na supplíca dom Egas, Bispo de Tuy. E d'este mesmo Rei escreve dom Frei Pru- dencio(2), que deu ao Bispado de Tuy os padroados das Igrejas de Afife, e Sá dentro em Portugal. E passados alguns annos, repartindo el-Rei dom Dinis muitas Igrejas de seu padroado entre os Bispos de Portugal (3), deu ao de Tuy como a Prelado de suas terras, o Mosteiro de S. Salva- dor da Torre junto a Vianna : o qual despois que estes lugares tornarão com a cidade á coroa de Castella, tornou tamhem ao padroado Real de Portugal, e correndo o tempo se unio á Meza Primacial deBraga(4); e he o mesmo que hoje possue a Ordem de S. Domingos, por rezão do Con- vento que temos na villa de Yianna, fundação (como ao diante veremos, 86 o Senhor for servido chegar-nos a escrevel-a) do santo Arcebispo dom Frei Bertholameu dos Martyres, que com licença del-Rei dom Sebastião, e dispensação do Pontífice o resignou n^ella pêra sustentação do Con- vento.
Havia nesta cidade huma pequena ermida, a que o povo tinha grande devação, por se dizer que fora obra do Santo Frei Pêro Gonçalves Tel- mo, e na mesma se mandara enterrar, por ser pegada com a casa em que falecera. Era o sitio vizinho aos muros da banda de fora ; e assi o achamos nomeado nas memorias antigas, por S. Domingos de par de Tuy. A memoria do Santo, e o grande numero de milagres que cada hora fazia, e o estar seu corpo em lugar, que passava de oitenta annos era da obediência pacifica de Portugal, obrigou aos Frades Portugueses a pretenderem acompanhar a ermida com Convento, e tratar do Santo polas mesmas rezões que ficão ditas como de Santo pertencente a Por- tugal. Quatro annos despois de começado o edificio no de Í28G, estando juntos em Braga muitos Prelados do Reino como dom Frei Telo, Arcebis- po Primas, e dom Almerico, Bispo de Coimbra, dom Vicente do Porto, dom Frei Bertliolameu do Algarve (este era frade de S. Domingos) dom João de Lamego, e dom Estevão de Lisboa, c outros Prelados, concede-
(I) Duarte Nunes, vida de D. AÍTonso III, foi. 87. {V Whíorh de Tuv, foi. 1."»:>.
(3) Duarte Nuneá, vida de D. Dinis, foi. 13:1. (5) Vida de D. l'rei Jlerlholaineu dos
Martyres, jior Fr. Lui# Cacega?. iiv.i. ca;». 25.
PAniICULAR DO REINO DE PORirOAÍ. 69
rão certas indulgências a quem visitasse este Convento : devia ser, ao que parece, com tenção de se ajudar a obra com esmolas dos devotos. E nas letras que passarão o nomeao por Convento de par de Tuy.
Passados cincoenta annos, achavâo-se os Religiosos todavia desacom- modados por ser mui estreito o lugar, e não terem meio pêra se alar- gar, respeito da visinhança do muro. E como desd o principio da Ordem nos acompanhou sempre o trabalho de mudar casas, e provar sitios, segundo se pode ver polo que temos escrito, na hora que houve occa- sião de melhorar, nem estranharão tomar o fato ás costas, nem tardarão em o passar a outra parte. Pareceo lugar a propósito huma Igreja, e Freguezia antiga situada na borda do rio, quasi sobre o cães da desem- barcação, com praça, e lugar espaçoso. Era annexa á dignidade do Mes- tre Escola da Sé: e a invocação de S. João Teiçon. Pedio-se, e alcançou-se por industria do Doutor Frei João Uodriguez, e dos mais Padres Con- ventuaes da cidade, cujos nomes erão Frei Francisco de Bragantinos, Frei Pedro de Pontevedra, Frei João de Camões, e Frei Domingos de Valença. Foi feita ermida morta, e renunciada polo Mestre Escola, e con- cedida polo Bispo, e seu Cabido, pêra eífeito de se tresladar a ella o novo Mosteiro. Chamava-se o Bispo dom Diogo de Muros. Ilouve-se logo licença do Pontífice, que era João vigésimo segundo. E d este tempo em diante lhe dá sua antiguidade a Historia geral da Ordem, sem embargo que confessa ser mais alta, polo que se collige da tresladação, e da nar- rativa do Breve Romano.
Ainda que a negoceação, e industria da mudança foi de tantos, a des- pesa e trabalho do ediíicio tomou só pêra si o Padre Frei Domingos de Valença, da fazenda de Durança Pires, sua prima, que a deu com gosto, ajuntando á doação vestir também o habito de Freira terceira da nossa Ordem, pêra a qual, por lhe não ficar cousa por dar, deu também hum filho, que n'ella foi pessoa de tanta importância, que veio a ser Provin- cial de toda Espanha. Era esta dona natural da villa de Valença, e fora molher de hum honrado morador d'ella, por nome Ruy Loi)es, e o filho se chamou Frei Martinho de Valença. Ambos, mãi e filho estão sepulta- dos no Capitulo do Convento, em sepulturas altas. Ella tem por cuberta do moimento huma figura inteira de fieira, lavrada de relevo na pedra, em sinal do habito que tomara, com huma letra (jue o declara, e diz: *Esta lie Durança Perez Frctjra de S. Domingos.» A sepultura do Pro- vincial está também autorizada com sua figura de frade, esculpida no
70 LIVRO lY DA HISTORIA DE S. DOMlNfiOS
ÍTiarmore, e sua letra breve, que diz: (dHsle he Freij Martinho Je Valença.* Esta memoria merecem por fundadores, e autores do Convento, como se ve de hum letreiro entalhado sobre o portal do Capitulo em lingoa Latina, que contém o seguinte. • -'•' -
ÍHam ãomiim fieri fècit Frater Domimcus de Valentia nnno Domini 4330 pro anima Dnrantiú} Petri^ et pro anima Fratris Marlini de Valentia (jnondam Prioris Provincialis, filij prcedictm Biirantice Petri : et pro anima f"ratris Dominici de Valentia consohrini proidiclce DuranticB, et cognati Procincialis prcedidi. Et iste Provincialis fuit filius honestalis et íleligionis: et fuit spemlurn electorum justitÍLe et humilitatis.
Em Porluguez responde o seguinte.
Esta casa fez edificar Frei Domingos de Valença no anno do Senhor de 1330, pola alma de Durança Pirez, e pola de Frei Martinho de Va- lença, seu filho, que foi Provincial : e pola alma de Frei Domingos de Valença, primo da dita Durança Pirez, e parente do dito Provincial. E este Provincial foi pessoa de muita honestidade, e religião : e espelho de escolhidos, e de bondade, e humildade.
Pouco faz ao caso a duvida de dous Domingos de Valença : hum tra- tado como edificador, outro como defunto. Possível he, que fossem am- bos hum só: e se forâo distintos, justo foi dar-se parte a todos do me- recimento, pois a herança de tão honrada parenta a todos pertencia. Maior duvida temos sobre o nome do Santo da Freguezia. Porque huns lhe chamão, como atrás dissemos, S. João Teiçon, outros Terçon, e mui- tos Içon. E porque se acha em memorias antigas nomeado por S. João do Porto, nâo falta quem o queira fazer natural da cidade do Porto em Portugal : mas não havendo melhor prova que o nome, parece engano nacido do sitio em que o Santo tem sua Igreja, e sepultura, que também he porto, visto como está no cães, e desembarcação do rio, e á borda da "agoa. De qualquer parte que o Santo seja, que o não podemos averiguar, •nem de sua vida, e feitos alcançar mais noticia, porque o tempo a tem escurecido de todo ; o certo he serem suas relíquias visitadas com deva- ção dos naturaes,e de muitos romeiros de fora por advogado das febres: i) hé tradição, que em tempos passados era mui grande o concurso nesta
PARTICULAR DO 1\1:T\0 DL PDRTlIf.AL 7t
Igreja de gentes de Portugal, especialmente por dia de S. João Baptista. Do que he bom indicio o que ainda hoje fazem muitos (começou o cos- tume despois que a cidade se tornou a unir com Castella) que he jun- tarem-se na praia, e areal da banda de Valença, que fica defronte do Santo, e d'aUi fazerem sua oração. Outros mais devotos tomâo barcos, e vâo-se polo rio até emparelharem com a Igreja, e da agoa fazem sua oração. Outros levao trombetas, c atabales, e oíTerecem-se com este gé- nero de festa significadora de bons ânimos. Muitos que desembarcão tem por devaçâo passar por baixo do altar, e levarem da terra, que lançíío ao pescoço dos enfermos : e affirma-se que faz Deos por ella muitos milagres.
CAPITULO XXIII
Do naclmento^ e estudos do Santo Frei Pêro Gonçalves T&lmo. E das rezões que ha pêra pertencer ao Reino de Portugal,
Estou considerando no titulo doeste capitulo, que estranhos, e natu- raes em lhe pondo olhos parão, elevantâo mão da lição; huns com quei- xa, outros com espanto, culpando-me, e tão bom dia se não for conde- nando-me de fazermos nossa a fazenda alheia ; quero dizer de darmos a Portugal hum Santo nacido em Castella, filha de habito de Convento Cas- telhano, morto, e sepultado em terra e cidade, que de Portugal nãa^ tem hoje nada, nem lhe deve nada. Digo que confesso, e não nego, quo^ o Santo he alheio de Portugal por nacimento, e por filiação, e polo es- tado em que hoje vemos a terra que cobre seus santos ossos ; mas tam- bem aflirmo que se quizerem suspender por hum pequeno espaço a sen- tença, e escutar poucas rezôes, entenderão que com ser esse que dizem, nenhuma sem justiça faço em o dar ao Reino de Portugal ; anXes come- tera erro, se lho não dera. E seja a primeira rezão com que a huns, o outros respondo, a mesma com que faço pertencer a este Remo o Con^ vento de Tuy. Leão as historias antigas, e acharão o que atrás dizemos dos muitos annos que a cidade de Tuy andou debaixo do senhorio de- Portugal. E quando este Santo faleceo n'ella, havia já cincoenta e três que se governava por estylo Portuguez, e ministros Portugueses. E se perseverara nesta jurdição como perseverou o Algarve, e como perseve- rarão os lugares que chamamos de Riba de Goa, que huma, e outra co- marca foi primeiro da coroa de Castella, nenhuma duvida ha que da
JZ T.nRO IV DA HISTORIA DE S. DOMINGOS
mesma maneira se contara por cidade de Portugal, que contamos Silves, Lagos, e Tavilla. E claro está qne despois de possuída cinquoenía annos de Portugueses, já se devia falar nella a nossa lingoagem, como dentro nas terras que acabamos de nomear. Correndo logo a cidade de Tuy por terra da coroa de Portugal, em posse pacifica, e quieta, e sem contradi- ção dos Reis a quem d'antes pertencia, bem se infere, que quando o Santo tornou pêra ella do caminho que levava pêra Santiago, dizendo ser vontade de Deos que ficasse n^aquelle lugar, e alli morresse como adiante veremos, era isto mandal-o ficar em terras de Portugal, e em terras de Portugal fazia conta o Santo que ficava. E não consinto falar-se-me n'este caso em demarcações, e Geografias antigas : porque despois que houve Reis, e Reinos, todas se apagarão, e ficarão os limites estendidos, ou encolliidos segundo o poder, e valia das armas de cada hum. Supposto logo que Tuy estava então dentro do senhorio de Portugal, como. na ver- dade estava: e S. Pêro Gonçalves sepultado n*elle, despois de em sua vida ter assistido muito tempo em Guimarães, e recebido nesta villa ao hubito muitos filhos, e entre elles os dous grandes imitadores de sua san- tidade S. Gonçalo, e o Santo Frei Lourenço Mendes : e pregado com continuação por todo entre Douro, e Minho : manifesta injuria fizéramos a todos os Reinos de Portugal se d'elle não tratáramos, como de Santo Portuguez. E assi digo que o hei por Santo nosso, como Pádua tem por seu a Santo António, que nasceo em Lisboa, e professou em Coimbra : Roma a S. Dâmaso, que naceo em Guimarães: Milão ao Beato Amadeu, ífue naceo em Campo Maior junto a Elvas, do sangue e casa dos Silvas : Çaragoça de Aragão a Santa Engracia, que nasceo no coração de Portu- gal: Córdova ao Martyr Sisenando, nacido em Beja : e Granada ao bem- dito João de Deos, espelho de charidade, natural de Monte-Mór oNovo em Portugal : e isto baste pêra os estrangeiros. Pêra os meus, que ás vezes são peores de servir, e mais duros de persuadir, acrecento que faço este Santo nosso polas mesmas rezôes, e fundamentos com que Lis- boa honra, e celebra como a natural a S. Vicente, nascido em Castella, martyrizado em Valença de Aragão. E a S. Félix, e Santo Adriano hon- ra, e festeja no Mosteiro d^ Chellas, sendo naturaes, hum de Africa, ou- tro de Ásia, e padecendo hum em Girona, outro em Nicomedia. Évora lionra a S. Maneio, cujo naci mento foi Roma: Braga a S. Giraldo, de pá- tria Francez, e a S. Martinho de Dumi, vindo das partes de Grécia. Mas quando se me não aceite nenhuma d'estas rezões, nem me va-
PARTICULAR DO REINO DE PORTIT.AL 73
Ihão as da posse dos Reis, que não falta quem m'as encontre, sem me mostrar tempo certo em que Tuy tornasse á coroa de Lião : temos ou- tro direito polo qual irrefragavelmente, e sem duvida pertencem a Por- tugal não só o Santo Frei Pêro Gonçalves, mas todos os mais Santos» que a Igreja de Tuy venera. Porque sendo assi que no tempo em que veio a falecer S. Pêro Gonçalves, e grandes annos despois, a maior, d melhor parte da diocesi d'esta cidade era dentro em Portugal nas terras d'entre Douro, e Minho, tão estendidamente, que se contavão nellas du- zentas e setenta Igrejas, que todas erão da jurisdição de Tuy ; em boa rezão está que se communique aos membros tudo o que á cabeça per- tence, com verdadeira irmandade. E d'aqui ficará entendida a antigui- dade, e origem da Igreja Collegiada de Santo Estevão de Valença, com toda a rezão de suas rendas, e dignidades que fazem representação de assento Episcopal. Porque he de saber que durando a grande scisma que se levantou na Igreja Catholica por morte do Papa Gregório undé- cimo: e dividindo-se os Príncipes Christãos em favorecer os successores, segundo a opinião que tinhão de cada hum, foi Deos servido que esto Reino, e seus Reis seguirão sempre a parte mais sã, e mais segura, que era a de Urbano sexto, e daquelles que em fim forão julgados por verdadeiros successores de S. Pedro. E porque no mesmo tempo suc- cedeo seguirem os Reis de Castella a parte contraria com todos seus Reinos, e Igrejas, em que já então entrava, e estava reunida a de Tuy : houve muitos prebendados nella, que não se dando por seguros na cons- ciência, se passarão á villa fronteira de Valença, que sendo da mesma diocesi, seguia com o resto do Reino de Portugal ao verdadeiro Pontí- fice Urbano sexto, e seus successores: e juntando-se nella aos Officios Divinos, logravão em paz de espirito suas prebendas. E daqui teve prin- cipio a falta que hoje tem a Sé de Tuy de suas rendas, e jurisdição anti- ga, e o crecimento da Igreja de Valença: como tudo nos constou por huma sentença bem digna de se ver, que sobre a matéria foi dada por Nicolao de Lápis, Núncio Apostólico nestes Reinos poios annos do Senhor de 1413, cujo original se guarda nos Cartórios da Sé de Rraga, e de Santo Estevão de Valença, que nos foi communicada polo Licenciado Lousada que outras vezes nomeamos.
Havendo pois de escrever d 'este Santo, julgamos por lugar próprio este Convento; visto como o primeiro foi fundado na mesma casa em que elle faleceo, como atrás dissen^os. E já temos outra vez advertido
74 LIYRO IV DA HISTOiVIA DE S. DQMlXfiOS
que pera evitar confusão determinamos enfiar toda a narração d'esta His- toria polas casas, onde os Santos falecerão, ou ficarão por suas reliquias, e não pola ordem dos tempos em que passarão da vida. Naceo S. Pêro Gonçalves na villa de Fromista em Casteíla a Velha, na parte que cha- mão terra de Campos, Bispado da antiga cidade de Palencia chamada dos Romanos com pouca diíTereoça Palancia, e assentada sobre o rio Garrion. Não falta quem o faça natural de Astorga, mas n'isto vai pouco: o certo he que foi fillio de pães nobres, e ricos, e criado em casa do Bispo de Palencia que era seu tio : o qual por conhecer nelle habilidade, e ter a occasião em casa dos estudos, que então tinhão assento n'aquella cidade, e d'ella se passarão despois á de Salamanca, o encaminhou pera as letras. Era mancebo, continuava com cuidado na universidade : crece a virtude favorecida : vagando huma conesia deu-lha o tio, e com ella esperanças de o passar a cousas maiores.
CAPITULO XXIV
Da conversão do Santo Frei Fero Gonçalves: e dos meios porque Deos •] o trouxe d Pieligiào : e do 'principio de seus milagres.
kií Pouco tempo tardou que não vagasse maior prebenda na mesma Igre- ja, que foi o Dayado d'ella: pedio-a o Bispo em Roma pera o sobrinho : concedeo-lha o Summo Pontiíice. Tanto que o mancebo teve a nova, de- terminou festejal-a, e no mesmo dia, que tomou posse da dignidade, que foi o do Nacimento de Christo, quando polo novo titulo tinha obrigação de representar mais modéstia, e autoridade em trajo, e em obras, então poz de parte as roupas largas, e com as de moço vão, e alegre, subio a cavallo, a dar vista á cidade, e mostrar-lhe o Dayão que tinha. Não posso cuidar que era isto de todo leviandade, mas creio, que como o tempo era de guerra continua com PJouros visinhos, onde muitas vezes convinha aos mesmos Bispos lançar o treçado sobre o roxete, e empu- nhar a lança: devia ser permitido aos Sacerdotes manejar cavallos, e exercitar as armas sem affronta da dignidade. Como quer que fosse, elle sahio gentil-homem, e lustroso quebrando as calçadas com o brio de hum ginete fermoso, e pisador, e muito mais com o que levava dentro de seu peito. Assi foi dando voltas á cidade, e passando carreiras onde lhe pa- recia que mais se acreditava por homem de cavallo. Chegando a huma
PARTICITLAU DO REINO TIE PORTlT.AL 7^1
praça, onde estava muito povo junto, nao esperou ser rogado, concerta- «e na sella, lança o ginete. Era o caminho de Damasco em que Deos es- perava a outro Saulo pêra o fazer vaso de eleição (*)• Quando cuidou de parar com bom corpo, e muito ar, cae o cavallo, e lança-o por cima das orelhas : acha-se o nosso Dayão estirado em terra, a capa a huma parte, o chapeo a outra, todo descomposto, e cuberto de lodo, que havia muito onde foi cahir. Acode o povo a levantal-o, huns com compaixão, outros dando-lhé os parabéns de ficar sem dano : mas assentou-lhe no coração todo o que poderá receber no corpo. Assi ficou sintido, o corrido como se quebrara perna ou braço : e mais quisera quebral-a em qualquer ou- tra occasião, que passar a vergonha presente. Triste, e carregado sem falar palavra, nem responder a ninguém se recolheo a casa : tirou-lhe a dor o sono, e espcrlou-lhe o juizl) pêra ver que assi como cahira do ca- vallo no lodo, e sem perigo, poderia cahir no lago do inferno arreben- tando da queda. Considerava as pagas que o mundo dá : quão repenti- namente lhe trocara o gosto com que aquelle dia amanhecera em magoas, e a soberba em vergonha. Assentou consigo que não merecia tal mundo 'sér olhado, quanto mais servido de homem sisudo. Erão isto já raios da graça divina. Esforçou o Senhor o impulso pêra não tardar a execução. Quando menos se cuidou apareceo o Dayão cuberto de huma estreita mortalha, que foi hum habito de S. Domingos, dando exemplo de hu- mildade na mesma terra onde o dera de presunção, e vangloria : grande principio, e bom pronostico de qual seria o fim. Os meios forão estu- dar com novo cuidado, e igualmente exercitar oração, e penitencia, que- brantando os brios da idade, e sangue por todas as vias, mas fiando sem- pre mais da graça de Deos, que de suas forças : a elle se entregava, a elle pedia o remédio pêra vencer, e não ser vencido.
Acabado o estudo, foi exercitando o ministério da pregação por mui- tos Conventos. Mostrava zelo da salvação das almas, que he o primeiro ponto de pregador Apostólico : d'esie nacia hum fervor grande, com que movia, e acendia os corações dos ouvintes. Não lhe faltava eloquência, e suavidade no dizer, que he hum esmalte que dá todo lustre, e \ida ao que se diz. Mandou-o a obediência que fosse pregar poios lugares da província, como então se costumava: e apostolar em beneficio dos próximos. Correo muita terra, e ajudou-o o Senlíor, porque fez grande frui to, reduzindo ao seu rebanho grande numero de oveWias desgarra- is Act. 9.
76 LIVRO IV DA HISTORIA DE S. DOMINfiOS
das, e trazendo muitos bons sogeitos ao habito. As terras que mais de assento tratou forão Astúrias, Galiza, e as terras de entre Douro, e Mi- nho, e Portugal. A ordem com que procedia era : na casa em que se achava a comer, ou dormir, mover praticas da virtude, dos enganos do diabo, o do peccado, representar o rigor do dia do juizo, e as penas dos condemnados : como via temor, o compunção (porque obrigava muito com a vehemencia que tinha nas palavras) passava ao amor de Deos, á sua misericórdia, e bondade pêra com peccadores arrependidos: e com- municando-lhe o mesmo Senhor sua graça, e espirito abrandava peitos de ferro. Em fim o ordinário era nâo sahir da casa sem deixar todos os moradores confessados, desd*o amo até o mais vil criado. O mesmo pro- curava nas estalagens com hospedes, e passageiros: e ainda que fosse de passagem nâo largava a estancia sem tirar algum ganho pêra Deos: 6 se havia doentes que quizessem confissão, a qualquer hora que se lhe dava recado deixava a pregação, reza, comida, sono, e repouso por lhes acudir com mais diligencia que se fora seu parocho. Ajudava o Senhor este santo zelo com famosos milagres.
Pregava hum dia junto de Bayona de Galiza, e era no campo, por ser a gente muita : começou subitamente a toldar-se o Ceo de nuvens grossas, e negras, seguirão trovões, e relamjtagos, sinais manifestos de chuva, e tempestade. Inquietou-se o auditório, ievantarão-se alguns. Pa- rou o pregador com o que hia dizendo, e pedio-lhes que se não alteras- sem polo que vião, porque lhes aíTirmava que o Senhor a que o Ceo, e terra, e a fúria dos ventos obedecião, tornaria aquellas carrancas em aprazível bonança, e não terião gota dagoa. Logo estendeo o braço con- tra a parte d'onde mais afuzilava, e vinhão correndo as nuvens: e assi como o levantou, se dividirão a huma, e outra parte: e deixando em meio o Ceo claro e sereno, forão engrossando pêra os lados e á vista se começarão a desfazer em agoa, e pedra, esbombardeando trovões, e raios, que como erão ao longe ficarão servindo de espectáculo, e de huma alegre salva, e matéria de louvar a Deos em seu Santo.
Foi este milagre mui falado : e de andar muito na boca dos homens d'aquelles portos de mar, devia ter origem e principio o encomendarem- se a S. Pêro Gonçalves os mareantes quando se achão apertados de tor- mentas : nas quais são notáveis, e sem numero as maravilhas que obrão seus merecimentos em favor dos que o buscão. Mas seguirão logo outros muitos, que acreditarão este. E a fama da santa vida que fazia, e o que
PAUTIClXAn DO RKINO i)K PORTUGAL 77
trabalhava por salvar peccadores, e encaminhar ignorantes pêra o Ceo, nâo tinha menos forra que os milagres: porque parecia Impossível po- der acudir luim corpo só a tanto trabalho, como punha sobre si. De Ga- liza sabemos que passou a Portugal, e pregou de vagar polas terras de entre Douro, e Minho: e por diíTerentes vezes residio no Hospital de Guimarães, que era assento, e como Convento de Frades de S. Domin- gos. E n'elle lançou de sua mâo o habito aos grandes Santos S. Gonçalo de Amarante, e S. Frei Lourenço Mendes. E esta he a rezâo de ser ce- lebrada n'aquella villa, e particularmente no Hospital sua memoria: ces- sando aqui a rezâo das navegações que n'este lugar nâo ha, visto como nâo tem mar, nem rio.
Bem sâo comparados a nuvens os varões Apostólicos : assi voâo por todas as partes: assi regâo, e fertilizâo as terras com as agoas fecundas de sua doutrina. Quasi nâo ficou lugar em entre Douro, e Minho, que não visitasse, em que nâo pregasse, onde nâo fizesse muito fruito. Quando parecia que andava do vagar em huma parte, aparecia, e estava já em outra obrando maravilhas. He cousa averiguada que residio algum tempo na Corte d'el-Uei dom Fernando de Castella. E como nas Cortes ha de ordinário tanto que emendar, e cercear, aproveitou muito n'ella o brado de sua doutrina, e o exemplo de vida. E pola mesma rezâo quiz el-Rei que acompanhasse o exercito, quando foi cercar Sevilíia. E entre os bens, que sua presença obrou com a gente de guerra, contâo alguns Autores que lhe aconteceo a maravilha de se lançar no fogo, por occasiâo de hu- ma perversa fêmea, que quiz tentar sua pureza. Mas a verdade he que este caso sucedeo no mesmo cerco, e no mesmo exercito a outro filho de nosso Patriarca S. Domingos, que foi hum que chamarão Frei Do- mingos o Pequeno, companheiro seu do numero dos dezeseis com que fundou a Ordem(l): e como S. Pêro Gonçalves fez tantos outros prodigios certos, e provados, como logo contaremos, e podia também fazer este,^ nâo me agrada atribuir-lhe os que trazem qualquer género de incerteza : visto como nâo ha duvida que succedeo a Frei Domingos.
O que n'este cerco rendeo grande gloria ao Santo, e á Ordem, foi huma companhia de homens do mar, que ovierâo demandar, sabendo que estava no exercito, e dar-lhe as graças de sua salvação (2). Erâo Portugue- ses, e contavâo, que sendo despachados polo commum da cidade de
(1) Castilíio Píírt. 1. liv. i. cap. %i. (2) M. Fr. Vicente Antist. na >ida de S. l'ero
Goiiral\es, cap. '1.
78 LIVRO iV DA IIISTOUIA DK í>. DOMLNíiOS
Lisboa com biima náo carregada de vitualhas pêra provimento do campo Catholico : passado o Cabo de S. Vicente lhes sobreviera hum temporal tão furioso que se derão por perdidos; e desesperando de remédio nâa souberão outro, se nâo chamar polo Santo, a cuja virtude tinhão ouvi- do dizer, que obedecião os ventos, e as tempestades. E no mesmo ponto virão todos sobre a gavía do navio hum Frade de S. Domingos, que não duvidavão ser o Santo Frei Pêro Gonçalves. Porque ficando cheios de consolarão, c confiança, fora logo acalmando o vento, e abonançara o
CAPITULO XXV ^
Da ponte que o Santo fez sobre o rio Minho: e da coutinuaçãq com que pregava: e de alguns milagres grandes que fez.
Passada a guerra, e conquistada Sevilha, como o Santo não sabia es* lar ocioso, foi dando volta por Castella : e no cabo tornou-se pêra os seus Galegos ou Portugueses do Minho, chamado, ou da singeleza da gente, ou da falta que entre elles havia de quem ensinasse. Pregava o Santo em Galiza, e era justo que desse por bem empregado o trabalho n'ella. Porque os lugares se dospovoavão polo ouvir: e não contentes com huma só pregação, deixavão suas casas, e hião-se apoz elle, molhe- res, homens, e mininos, por alcançarem nos outros lugares, a que pas^ sava, as palavras de vida, que arrebatavão corações, e os fazião esque- cer de tudo. Assi parecia que levava hum exercito trás si. Chegou hum dia ao rio Minho a certo passo, onde de verão havia váo junto ao lugar que chamão Castello não longe da vjlla de Ribadavia. Disserão-lhc ao passar que na mór parte do anno era o passo occasião de muitas mor- tes: porque sendo a passagem forçosa aos visinhos pêra remédio da vi- (Ja, acontecia perderem-na muitos. Considerou o Santo o higar, ,e coro vista de olhos entcndeo o perigo que haveria crecendo as agoas de in- verno: sintio-se abrazar em zelo de charidade, compadecido entranha- velmente dos pobres, a quem a miséria do estado obrigava pôr em risco vidas, e almas. E fazendo refleccão cm quantos irião em ni;ío estado, ou ao menos cheios de descuidos, pêra passar num momento do Imm mun. do a outro, propoz consigo lançar alii huma ponte: e como o determi- nou, assi o disse logo aos que o seguião. Quando menos cuidavão fur- tou-se a todos, c foi-se ã Cor(e d'el-Rei flom Fernando ; dcu-lhe conta
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(lo diseriíio, pedio-llie ajuda de sua fazenda, e favor de carias, e recom- mendações da obra pêra os Bispos, e senhores da terra. E dando Vol- ta como em posta, iião se servindo de outra mais que do seu bordão, nem de mais alforge que a charidade dos íieis, corre pola terra, ajun- ta oíTiciaes, convoca obreiros. Não havia quem arrostasse á obra, por- que a todos parecia disparate. Os qiiQ havião de ajudar com esmolas fol- gavão de as dar á conta das cartas Reaes, e muito mais da virtude, e charidade do Santo : mas da empreza fazião graça, havendo que pêra o mesmo Rei era difficuUosa : quanto mais pêra hum pobre Frade. Aqui SC vio como [são encontradas as traças do mundo com as do Geo. Lan- çou o Frade seu cuidado em Deos : elle lhe deu animo, e trás o animo forças pêra começar, e ver acabada huma fabrica Real, sem ter mais fa- zenda de seu, que o breviário por onde rezava. lie a ponte, como con- vinha pêra hum rio tão caudaloso, alterosa, e grande, lavrada toda de cantaria tão firme, e bem fundada, que prometia durar tanto, como as serras, que desd'a criação do mundo não íizerão mudança, se não acon- tecera vir a render com a muita antiguidade, e ajudada de algum terre- moto, a descompassada abertura do arco maior. Abrio, e fez ruina polo meio da volta : com que está hoje inútil n'esta parte, estando em todas as mais tão forte, e lirme como no primeiro dia. Elle era o sobrestante da obra, elle o architeto, e o pagador: e elle em íim o obreiro, porque não se contentava com menos que carregar ás costas a pedra, e cal, pêra podermos aíTn^mar, que também foi obra de suas mãos a ponte, como de sua industria. IMas provava-o Deos, com muitas vezes chegar a cousa a estado de lhe faltar com que acodir a mestres, e jornaleiros : e com tudo nunca perdia o animo : remetia tudo ao mesmo Senhor com aíTe- ctuosas orações, rcpresentava-lhe o lim que tevera na obra, encaminha- do só a seu serviço. Corrião logo da Divina l)ondade novas, e soberanas misericórdias que todas licarão bem entendidas do que agora diremos. Era hum dia de peixe : sobejava pão, mas não havia com que o comer; a gente que andava na obra. era hum povo inteiro, porque tendo-a por milagrosa, despcis que a virão posta em caminho acodia em bandos a trabalhar, assi por darem gosto ao Santo, como também polo ouvir; porque nunca deixava de misturar o pão, e pasto espiritual, com o ma- terial quotidiano. Houve quem apontou a necessidade. Não esperou o Santo que murmurasse ninguém ; e com a mesma confiança eom que cm- prcndera tamanha machina, se foi ao rio, sentou-se na pi'aia, levantou os
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olhos, c O coração ao Padre Eterno ; nã(j foi necessário mais que propor- Jhe a necessidade, como em outro tempo a Virgem Mãi ao bemdito Jesu; Vinum non habent (l). E he de crer, í}ue usaria das mesmas p;>lavras no se»- tido do que então faltava, senão quando começa a a^oa a ferver, e appa- recer por ella cardumes de peixe, que lium sobre oi*tro se vinha á praia; o alguns que tem por natureza dar salto no ar, ou í>or [xirtieipar d'eile, ou por viço, e ligeireza, agora parecia quererem saltar ikj regaço do San^ to. Estava o povo atónito, e como fora de si com tal novidade ; acodi^ todo homem, ficou a obra em quedo. Chama o Santo a seu companhein jo, que as historias nomeâo por Frei Pedro das Marinhas, maiida-lhe que seja elle o pescador da nova pescaria. Enchia Frei Pedro os cestos que servião na obra, e lançava em terra. Não fo^ia nenhum, nem se des- viava por isso, perdido o amor natural da conservação, ou movidos todos d'outro instincto mais alto. Despois que Frei Pedro pescou assi quanto pareceo bastante pêra a occasião presente, lançou o Santo a benção aos que ficavão, como n outro tempo fazia o Martyr S. Braz ás feras que o Luscavão no deserto (2); e então como se outra cousa não esperarão so- ínião-se no fundo, e desaparecião. Isto lhe aconteceo muitas vezes com grande espanto, e gosto das gentes ; e não pequeno beneficio da fabrica, porque a fama do milagre até ao longe despejava os lugares. Outras cou- sas succederão aqui maravilhosas, mas convém ir abreviando, pois to- das são menores á vista do que temos referido.
Acabada a ponte, i)assou-se pêra as terras da jurdição de Portugal, digo i)era a cidade, e comarca de Tuy, que já em vida como despois na morte o aíTeiçoava o Senhor a esta parte. Aqui pregava, e doutrinava o povo sem cessar, andando de lugar em lugar, e de aldeã em aldeã pêra se communicar a todos. Estava hum dia na cidade agasalhado em casa de hum fidalgo, tinha trabalhado no santo ministério da doutrina toda a manhã, e fazião-se horas de jantar ; eis que lhe dão recado de parte de hum Clérigo de Bayona seu conhecido, e devoto, que estava apertado de hum forte accidente, e chamava por elle como por ultimo remédio de sua alma. Não foi necessário pêra o Santo maior instancia, que tocar- Ihe em matéria de alma. Na mesma hora se poz ao caminho sem lhe lembrar comida, nem almorço bem merecido já com o trabalho do dia, e necessário pêra quem não era moço, e havia de caminhar a pé. To- mou o Santo o caminho com passos de quem desejava chegar a tempo
(!}JoanB.2. (i) Breviário Roraaii.
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á necessidade, e ao amigo. O desejo lhe dava forças, e enleava a fome : e vendo-se só entre os montes buscava companliia que o fazia esquecer de toda a cousa da terra, sobindo aos Choros dos Anjos por meio de huma alta contemplação. Alii se deleitava no que sintia, e sintia os sa- bores d'aque!le pio sobresustancial que o Senhor com liberalidade com- munica aos que com determinada vontade o sabem buscar. Assi iiia ca- minhando á ])ressa, e sem pena. Seguia-o hum bom pedaço atrás seu companheiro, e o messageiro secular que lhe trouxera o recado ; e ten- do andado tanto sem parar, que sobiao, e hião vencendo o alto de huma serra, onde chamão a Portelia de Arcelha, começou o companheiro a sin- tir o trabalho, com ser moço, e robusto, e disse pêra o secular : O Pa- dre companheiro, como he avezado a caminhar muito, e comer pouco, nâo sente o que outrem padece ; medo nossas forças polas suas, e nâo cabe que os mais moços tem mais necessidade de comida, porque tem fogo, digirem melhor, e gastão mais. No mesmo ponto entendeo o San- to por revelação Divina a murmuração : o parando hum pouco chamou por elle, e disse-lhe com muita brandura, o confiança no Senhor: Meu íilho, se vos sintis fraco, e tendes necessidade, chegai áquelle penedo (e sinalou-lh'o com o dedo) e n'elle adiareis o que baste pêra vos satisfa- zerdes por esta vez. Foi o companheiro obrigado mais da obediência, que de esperança da promessa, e do que desejava : acompanhou-o o se- cular, e chegando ambos acharão com espanto mesa posta. Erão dous pães alvos, e mimosos sobre toalha lavada, e hum vaso de vinho. lYou- xerão tudo ao Santo com alegria: mandou-lhes que matassem a fome, e o que sobejasse tornassem ao penedo. Comerão ambos o que lhes bas- tou, e tornarão alguns sobejos ao lugar. Mas indo hum pouco adiante praticando no successo, e altercando ja como fartos, se fora aquillo mi- lagre, ou cousa succedida, a caso, vencidos da duvida, ou tentação, de- terminarão tornar polo pouco que deixarão : e fazendo conta que não se- rião sentidos do Santo, que hia com todo o espirito occupado no Ceo, tornarão correndo ao penedo, no qual não acharão já nem sinal do que tinhão posto. Assi fizerão volta em seguimento do Santo pasmados to- davia, e atemorizados, e com rezão : porque chegando a elle achou o companheiro huma boa reprehensão, dizendo-lhe, que o mesmo que ai li posera o pão, e vinho, de que se tinhão aproveitado, tevera cuidado de arrecadar os sobejos: porque se o dera, fora pêra acudirem á necessi- dade, c não pcra satisfazerem curiosidade intempestiva, e desnecessária,
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qual fora a sua ein tornar a buscar o que linliâo deixado. Dous milagres houve n'este caso, e duas revelações, se bem o consideramos. Mas mui- tas outras cousas fazia, e dizia o Santo, cm que se manifestava espirito profético que o acompanhava, o poder Divino que íis obrava como logo veremos.
GAmULO XXVÍ
De hum notável milagre qus õ Santo fez: e de seu bemaventurado transito
na cidade de Ttiy.
Chegava o Santo hum dia de grande calma cansado, e suado, e mor- to de sede & huma aldeã junto á cidade de Santiago, ijuntava-se á for- ça do Sol, a que lhe fazia o trabalho de huma pregação que <ncabara em outro lugar. Foi em demanda da casa do Cura, e pedio se haveria hum pouco de vinho ^Gom que se poderem restaurar do cansaço ellc, e seu companheiro, e passarem adiante onde o esperavâo também pêra pre- gar. Acodio á porta huma boa velha que o conhecia, e disse4he, que de boa vontade o servira com o que havia em casa, mas que alem de ser pouca quantidade uo fundo de hum frasco, tinha ordem do Cura de lho guardar com cuidado *ú pena de castigo. Uespondeo o Santo sorrindo-se, que todavia lhe desse o vinho, que poderoso era Deos pêra remedear seus servos, -e livr-aWa a ella de idano. Persuadio-se a velha, ic folgou do se arriscar, par<3cendo-lhe que fazia obra de charidade com quem pre- cisamente estava necessitado. Nâo erão bem sabidos os Frades, quando nas suas costas entra o dono da pousada: e ^como fervia o Sol, foi-se ao frasco pêra matar a sede: espanta-se de o achar pesado, lembrando-se que o deixara quasi vasio; espanta-se mais, vendo-o cheio, e achando li- cor excellente, nâo só »ventajado ao que deixara. Acode a velha cheia de alegria vendo o milagre, e conta-lhe o que passara com o Santo. Sahio logo o Cura correndo em seu seguimento, alcança-o, conta-lhe a maravilha, e pede-lhe, que torne a servir-se da casa, e delle. Mas não era bom termo pêra o obrigar historia de louvor seu: continuou seu ca- minho.
Era poios annos do Senhor de mil e duzentos e corenta e seis, se- gundo a conta do Mestre Frei Fernando de Castilho, e segundo outros duzentos e cincoenta e hum, quando o Santo pregando em hum Mos- teiro de S. 13enlo por dia de Ramos, despedio o povo que o acompa-
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nhava, dizendo que nâo era Deos servido que desse trabalho a tanta gente, porque havia muitos velhos, e mininos, e molheres, que padeciâo muito polo seguir: e que soubessem de certo que naquelle lugar o não verião mais, porque não tardaria muito o fim de seus trabalhos, e de sua vida. E por despedida pedio a todos com humildade de Santo, e humas palavras sabidas da alma, que o encomendassem muito a Deos : porque ainda que nâo entendia ter dado escândalo a ninguém com sua vida, e trato, com tudo se conhecia por humano, e fraco, e muito neces- sitado das orações dos fieis. Daqui dizem que foi a Tuy, e pregou todos os dias da semana santa sem desça nçar: e apontao que huma das cou- sas que principalmente encarecia nestes derradeiros Sermões, era a ne- cessidade do Sacramento da Confissão, e Penitencia: e despois delles costumava á imitação de nosso Redemptor descansar do trabalho do dia, passando as noites no campo em oração. Não era o Santo tão velho nos annos, como as penitencias, os caminhos, e a força, e continuação de pregar o tinhão reduzido a huma cansada velhice de muita fraqueza, o falta de forças. E o muito, que se forçou nesta semana acabou de o debilitar de maneira, que a primeira oitava lhe sobreveo huma febre rija, e entendendo que era aviso do fim que esperava, fez força, dese- jando de ir morrer na casa do Bemaventurado Apostolo Santiago. Foi caminhando como pode até o lugar de Santa Comba. Aqui lhe revelou o Senhor que era chegada a hora de receber o galardão de seus traba- lhos, e mandou-lhc que se tornasse a Tuy. Cheio de alegria com tal nova chamou seu companheiro, e disse-lhe: Meu filho, o Senhor Deos tem dado termo aos dias de minha peregrinação, poucos são os que me restão. Em Tuy quer que seja o remate: pois elle manda, convém obe- decer, tornemos sem tardança, e ahi nos despediremos pêra sempre. Chegou com trabalho á cidade, e o abalo do caminho ácendeo o fogo da febre. Tinhão contenda naquelles membros santos dous grandes es- tremos, hum de atílição, outro de alvoroço: atormentava-os a febre com accidentes mortaes, alegrava-os a esperança da gloria com júbilos da al- ma: e esta lhe suspendia o trabalho da doença de maneira, que se lhe transluzia no rosto o contentamento com que esperava a morte. E como todo o emprego dos traballios dos Santos he só pêra segurar esta hora, não se esqueceo, vendo-se nella, de se ajudar das armas que Christo nos deixou em sua Igreja, que são os santos Sacramentos da Communhão, e Extrema unção: c recebendo-os com seu costumado fervor, e devoção,
Si LIVRO IV DA HISTCHUA DE 5. DOMINGOS
e com Imma alegria de quem já reconliecia o porto, e começava a ver os fermosos horizontes da pátria celestial, foi-se despedindo dos que es- tavâo presentes com amor, e humildade. Com o hospede da casa teve mais particulares colloquios: dos quaes podemos crer que falava com eí- ]e como com toda aquella diocesi, e republica, que nelle se lhe repre- sentava, e na republica com a coroa, e jurdição em que estava do Rei- no de Portugal. Eu me parlo, dizia, desta vida com grande confiança no Senhor, que usará comigo na outra de suas misericórdias. Pouco tempo o servi, e esse com muitas faltas, e imperfeições. He grande Deos, pôe os olhos em si, paga como quem he, não como quem nós outros somos. Como tão benigno, e tão rico, tem-me prometido, que por fazer mercê, e honra a este pobre bichinho, favorecerá esta cidade e sua co- marca, e a livrará de muitos castigos que os peccados dos homens sem- pre estão provocando. Assi me ficarei entre vós outros como visinho, e amigo. A vós particularmente por me sofrerdes nesta casa, e me agasa- lhardes com tanta charidade, tomara deixar algum sinal de agradeci- mento. Como pobre, o que outra cousa não possuo, vos peço que acei- teis em memoria esta correa que me cinge: pôde ser que algum dia vos sirva. Descançou hum pouco, e apoz hum breve inter vai lo se foi descan- çar pêra sempre. Do dia certo se perdco a memoria: e no anno também ha a duvida, que atrás apontamos. Mas concordão todos, que faleceo en- tre Páscoa de Resurreição, e Espirito Santo.
CAPITULO XXVII
Como foi sepultado o Santo, e despois seu corpo trcsladudo pêra a Sé: e iiella melhorado de lugar duas vezes.
Foi sepultado o Santo com toda a honra, e pompa que podia ser ; acudio toda a cidade a acompanhal-o, e o Rispo fez o Ofiicio, e ajudou a meter o corpo na sepultura, quo por então foi em huma jK^quena er- mida, que o Santo edificara, por \úo haver ainda na terra casa da Or- dem. Sendo enterrado, não tardou o Senhor em honrar sua memoria poios meios que costuma. Forão grandes, e famosas maravilhas, as que se vião em sua sepultura, e as que sintião em si todos os que a elle se encomendavão. E foi a primeira que no mesmo dia naceo n'ella hum es- tranho género de fonte, que manava olio clara, e conhecidamente, oliu
PARTICULAR DO REINO DE PORTUGAL 85
admirável nos effeitos, como mysterioso no naciraento, e semelhante ao que se escreve dos sepulcros de Santa Caterina no Monte Sinai, e de S. Nicoláo em Bari cidade do Reino de Nápoles: porque da mesma ma- neira era singular antídoto contra todas as doenças.
No segundo dia de seu falecimento veio á ermida, em que foi en- terrado, huma Senhora principal, que tinha sua casa em hum lugar per- to da cidade : porque fora sua devota, e costumava agasalhal-o, e fazer- Ihe outras boas obras, e estando desconsolada com a nova de sua morte vira o Santo em sonhos, que lhe dizia que fosse á sua cova, e ahi veria cum- primento da promessa que lhe fizera em vida. Foi o caso, que esta dona pe- dio hum dia ao Santo, que lhe desse alguma peça de seu uso, pêra lhe ficar em memoria, quando Deos o levasse. Defendeo-se o Santo parecendo-lho acto de vangloria:mas sendo importunado, disse que em vida, ou em morte prometia dar-lh'a. Obrigada de huma, e outra promessa, estava junto da cova em oração: e olhando pêra ella notou hum sinal de abertura, que primeiro não vira. E querendo aíTirmar-se, provando com a mâo se se enganavâo os olhos, trouxe n'ella hum dente claro, e fermoso, que não teve duvida em ser do Santo, porque a terra se tornou a cerrar como d'antes. Assi o recebeo com lagrimas, e por jóia preciosa o levou, e guardou.
Começou logo a ser celebrada, e visitada a sepultura de naturaes e estranhos ; e achando todos remédio em seus males por seu meio, cre- cia cada dia mais o concurso. Por onde, passados alguns annos forão cahindo os cidadãos, e sintindo que era notável descuido entre gente pia estar tão mal agasalhado dos seus quem tão venerado era dos forastei- ros, tomou o Cabido á sua conta o negocio. Mandou lavrar hum moi- mento de mármore, segundo aquella idade sumptoso, e posto na Sé tres- ladarão a elle as santas reliquias. Mostrou Deos logo que se havia. por bem servido na obra. Porque foi continuando o mesmo manancial do olio, que se via d'antes, do qual achamos em memoria qne recolherão os Cónegos cantidade, e aflirma-se que ainda em nossos dias se guarda al- gum.
Amoestados o Bispo, e Cabido com tamanho sinal procurarão juntar na Sé todas as reliquias que pudessem haver do Santo: e tendo já em seu poder a capa, e cajado, e outras algumas, pretenderão tambeip a cinta. Mas parecendo crueza desapossarem a quem o Santo fizera senhor delia, pedirão-lhe parte. Consintio o possuidor: juntarão-se pêra a par-
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tilha. Poréui querendo-lhc pôr a faca (caso prodigioso) saltou o ferro da mão a quem tentava a execução do corte, e foi o salto tâo longe, como